Saímos do corpo?

junho 21, 2015

Por Flávio Amaral

O que é possível afirmar sobre as controvertidas experiências fora do corpo?

Platão provavelmente responderia que sim, como sugerem os diálogos de A República sobre o armênio Er, e sua famosa alegoria da caverna. E seu aluno, Aristóteles, também demonstraria que o Sol gira em torno da Terra, fundamentado na trigonometria – um dos recursos científicos mais avançados da época. Ambos eram pensadores ilustres buscando conhecer as coisas, quer pelas ciências exatas, quer pela reflexão filosófica. Nenhum era infalível.

Mas ainda hoje queremos uma resposta infalível para a pergunta: saímos do corpo?

viagem astralMuita gente “sabe que sim”. Para estes, a experiência pessoal é prova suficiente para responder a este problema. Entretanto, se assim fosse, não existiria ilusão, nem truques de mágica, nem engano, nem alucinações individuais ou coletivas. Bastaria a confirmação das percepções pessoais para que algo fosse ratificado como verdadeiro.

Faça o clássico experimento de ilusão térmica com água e outros com os quais conseguimos “enganar” nossas percepções (confira alguns aqui e aqui). Ou tenha uma experiência fora do corpo e perceba como nem tudo no seu quarto continua no mesmo lugar. Assim sendo, por que devemos considerar que a experiência pessoal – por mais que aparente ser real – é infalível para aferir a “realidade”?

Aliás, nossos sentidos nos mostram o Sol girando em torno da Terra, diariamente, e não o contrário. Ninguém, por “experiência pessoal”, concluiria que nosso planeta circunda aquele astro à velocidade de 30km/s, além disso, girando em torno do próprio eixo a 1.700km/h.

Mas uma coisa é fato: as experiências fora do corpo (EFCs) são percebidas como reais, objetivas, não simplesmente imaginadas ou subjetivas. E não se tratam de experiências mais frequentes em indivíduos com quadros de doença psiquiátrica. Imagine-se levantando a mão direita e, em seguida, levante a mão direita. Esta é a mesma diferença entre a experiência de estar fora do corpo e a experiência de imaginar-se fora do corpo.

As EFCs também se apresentam de modo diferente de uma alucinação febril ou sonho, por exemplo. Estes últimos costumam revelar-se “irreais” a partir do momento em que o indivíduo acorda ou retorna ao seu estado de consciência normal. Inversamente, após a EFC característica, a lembrança é de que se estava “acordado fora do corpo”, enquanto o corpo dormia (sem falar de EFCs mais raras que ocorrem ao caminhar, correr, praticar esporte, sofrer um acidente etc).

Real ou não, a EFC não é algo explicável como fruto de simples e corriqueira imaginação.

mente

Outras pessoas, por sua vez, “sabem que não”. Não saímos do corpo e ponto final – são meras experiências alucinatórias. Há pesquisas como a do neurocientista Olaf Blanke produzindo a percepção de que uma prótese é, de fato, parte do corpo da pessoa, ou induzindo EFCs a partir da ativação de determinadas áreas cerebrais.

Mas estas pesquisas não são suficientes para eliminar a hipotética existência de um espírito que sai do corpo, da mesma maneira que produzir a experiência ilusória da mão biológica em uma prótese, ou mesmo a experiência dos membros-fantasma, não é suficiente para negar a existência de mãos ou membros biológicos materiais e objetivos.

Não obstante, um benefício desse tipo de pesquisa é demonstrar como percepções anômalas, incomuns, anormais, podem ser produzidas em indivíduos perfeitamente saudáveis, ajudando a romper uma longa e velha tradição de considerar as EFCs – ainda que sejam apenas percepções alucinatórias – como sendo experiências patológicas, doentias.

Alguns psicólogos como Renauld Evrard investigam diagnósticos diferenciais entre psicopatologias e as chamadas percepções anômalas, o que levou a pesquisadora Christine Simmonds-Moore a cunhar informalmente o termo “happy schizotypes” (esquizotípicos felizes) para descrever pessoas com nível significativo de percepção incomum nas escalas de esquizotipia, embora apresentem pontuações normais ou acima da média nos índices de saúde mental e bem-estar.

Algo semelhante ocorre com os sinestésicos. Quem somos nós para afirmarmos que um Dó Sustenido não pode ser sentido como vermelho ou doce? Ou que a letra A não tem uma textura áspera? Aliás, quem somos nós para considerarmos que um daltônico enxerga “errado”, se outros animais são naturalmente daltônicos e nós, humanos “normais”, tampouco identificamos certas cores discriminadas por outras espécies.

Tratam-se apenas de estímulos ambientais que ativam ou não os sentidos físicos e circuitos cerebrais, de uma forma ou de outra. Portanto, quem somos nós para afirmarmos que uma pessoa está errada, enganada ou iludida, ao sentir-se fora do corpo? Quem disse que o correto é sentir-se “dentro” do corpo?

A EFC, como qualquer outra experiência, não é necessariamente boa ou ruim. Tudo depende do modo como ela é integrada à própria vida (ver por exemplo, meu artigo My First Out-of-Body Experience, no Journal of Exceptional Experiences and Psychology, onde faço uma autoanálise psicológica relacionada à vivência de uma destas experiências).

Os gregos já questionavam as trajetórias anômalas de alguns astros (os “corpos errantes”, “deuses”, hoje conhecidos como planetas). Passaram-se quase dois milênios – graças a novas condições técnicas, teóricas e culturais – para que Copérnico, Galileu, Cassini, Kepler, Tycho Brahe, Newton e outros trouxessem contribuições que nos permitiram chegar ao entendimento atual do Sistema Solar.

Faz pouco mais de um século desde que Albert de Rochas procurou detectar efeitos físicos dos supostos “eflúvios” e do “duplo astral” de médiuns durante experiências extracorpóreas. Mais recentemente, experimentos foram conduzidos, como os da ASPR – American Society for Psychical Research – com Alex Tanous e Miss Z.

Considero que ainda há muita pesquisa a ser feita para podermos concluir se de fato um espírito sai do corpo ou se o fenômeno é exclusivamente cerebral. Se é que um dia não abandonaremos estas hipóteses em favor de outras. E ainda que eu goste de acreditar na imortalidade da alma, não penso que saídas fora do corpo sejam suficientes como prova da imortalidade, assim como a luz projetada por uma lanterna não significa poder, esta mesma luz, se manifestar independente da lanterna.

Enquanto isso, aproveitemos estas experiências, sem a pressa para forçarmos nossas posições espiritualistas ou céticas aos demais. Muito se pode fazer com a vivência extracorpórea, mesmo sem conseguirmos responder à pergunta sobre a objetividade da saída do corpo, da mesma forma que os antigos navegavam utilizando a posição dos astros, do Sol e da Lua, mesmo que não soubessem quem gira em torno de quem, ou sem ter a concepção das estrelas e do céu como os conhecemos na atualidade.

Podemos aprender muito com nossos sonhos, ainda que a ciência não tenha chegado a um consenso sobre o que são eles, como se produzem, por que ocorrem e para que servem. O mesmo vale para a experiência fora do corpo. Seja ela uma “saída real” ou apenas “coisa da cabeça”, isto não a impede de ser uma oportunidade de exploração do universo subjetivo pessoal.

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Anthony Robbins – NBC Cancela Breakthrough

agosto 11, 2010

Por Tony D’Andrea

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Uma das maiores decepções da TV norte-americana recente foi o cancelamento do programa de Anthony Robbins apos apenas 2 episódios na rede NBC. “Breakthrough with Tony Robbins” apresenta casos reais onde o guru da auto-ajuda aconselha pessoas a superarem problemas de vida. Inicialmente planejado para seis episódios, foi cancelado apos duas semanas. Apesar da audiência de 3.1 milhões, trata-se de apenas 0.8 pontos para TV  aberta, uma das piores aberturas registradas – algo que ate mesmo analistas céticos se perguntam e lamentam. Esse show teria sido um choque positivo, um remédio espiritual num sistema de TV de baixíssima qualidade cultural.  Uma pena. No próximo post, vamos falar da biografia de Anthony Robbins. Aguardem…

One of the greatest TV upsets in recent history was the cancellation of Anthony Robbins’s reality show after just two episodes on NBC. Breakthrough with Tony Robbins features real people with serious life issues being coached by the self-help “peak performance” guru. Originally planned to last six episodes, the project was aborted still in the second week. Despite its 3.1 million audience, this is a meager 0.8 points, as Breakthrough lost for Masterchef and NCSI on Fox and CBS. Even skeptical hard-nosed media analysts wonder and even regret what happened. Breakthrough would have been a very positive spiritual remedy in a TV of extremely low quality. What a pity… In the next post, I’ll talk about Anthony Robbin’s biography. Stay tuned…

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Filme “Inception”: Realidade e Projecao

julho 31, 2010

Por Tony D’Andrea

“Inception” e’ um filme magistral de Christopher Nolan que segue a linha de psico-thriller eletrizante que o fez famoso com “Batman Begins” e “The Dark Knight”. O plot e’ o de psicólogos com tecnologia para penetrar o subconsciente das pessoas durante o sono, com detalhe: o psicólogo também deve estar dormindo durante a sessão. No filme, estes penetras da mente (Leonardo Dicaprio, Ellen Page, Joseph Gordon) são ladroes do mundo da espionagem industrial, manipulando sonhos de executivos para roubar ou implantar ideias milionárias. Os detalhes você pode admirar no cinema. Aqui relaciono o filme com possíveis interpretações da psicologia e projeciologia.

“Inception” se inspira em conceitos básicos da psicologia: o sonho enquanto estado alterado da consciência, e as projeções subjetivas do inconsciente com as quais nos relacionamos durante o sonho, e as quais frequentemente definem ou distorcem nossa noção de realidade, nossas percepções e opiniões.  Os filmes de Nolan aludem a estes estados alterados, especialmente através de drogas psicoativas. Em “Batman Begins”, Bruce Wayne cheira o fumo da rosa violeta para confrontar medos inconscientes com alucinações emotivas. Em “The Dark Knight”, Coringa e’ um esquizofrênico sociopata agudo. Em “Inception”, um químico indiano produz um forte sedativo que permite sonhar em múltiplos níveis: um sonho dentro de um sonho, dentro de um sonho…

Este sonhar dentro do sonho paradoxalmente levanta a questão da consciência sobre a diferença entre fantasia e realidade. Durante o sonho, as vezes sabemos que estamos sonhando. E em outras ocasiões, a realidade parece onírica (surreal) em circunstancias absurdas, bizarras, marcadas por fortes emoções. No filme “Inception”, os espiões industriais usam amuletos pessoais (“totem”) em auto-teste íntimo para discernir se estão acordados ou sonhando: um peão ou peça de xadrez são usados em situações de emergência psicológica.

Projeciologos e outros projetores astrais frequentemente falam da necessidade de discernir a realidade do sonho. Neste ponto de vista, a projeção da consciência não e’ apenas um sonho subjetivo, mas fenômeno objetivo e real que ocorre numa dimensão extra-física. Também interessante, assim como os personagens de “Inception” usam totens para saber se estão acordados, projeciologos usam uma técnica semelhante. O sujeito deve repetir a si mesmo uma mesma pergunta durante o dia e semanas, “estou dormindo ou estou acordado?”. A premissa e’ a de que, com a repetição se satura a mente, e o sujeito passa automaticamente a fazer a mesma pergunta durante estados semi-oníricos e oníricos. Assim, se feita durante o sonho, a pergunta funciona como alavanca (totem!) para despertar a consciência fora do sonho e fora do corpo, segundo os projeciologos.

No filme “Inception”, as dimensões do inconsciente e realidade são apresentadas através de uma perspectiva estritamente subjetiva e psicológica. Em nenhum momento se faz referencias a ideias espiritas ou projeciologicas. Entretanto, no Brasil, muitos vão interpretar o filme neste viés: como projeções da consciência para fora do corpo, particularmente no caso dos personagens que infiltram a mente de sonhadores para roubar ou depositar ideias. Estes penetras podem ser identificados como obsessores espirituais, e as projeções inconscientes personificadas, abundantemente mencionadas no filme, podem ser vistas como espíritos desencarnados…

Independente da sua posição – espirita, projeciologo, materialista ou cético – não deixe de assistir “Inception”. Trata-se de um filme com roteiro muito original, excelente e eletrizante.