Saímos do corpo?

junho 21, 2015

Por Flávio Amaral

O que é possível afirmar sobre as controvertidas experiências fora do corpo?

Platão provavelmente responderia que sim, como sugerem os diálogos de A República sobre o armênio Er, e sua famosa alegoria da caverna. E seu aluno, Aristóteles, também demonstraria que o Sol gira em torno da Terra, fundamentado na trigonometria – um dos recursos científicos mais avançados da época. Ambos eram pensadores ilustres buscando conhecer as coisas, quer pelas ciências exatas, quer pela reflexão filosófica. Nenhum era infalível.

Mas ainda hoje queremos uma resposta infalível para a pergunta: saímos do corpo?

viagem astralMuita gente “sabe que sim”. Para estes, a experiência pessoal é prova suficiente para responder a este problema. Entretanto, se assim fosse, não existiria ilusão, nem truques de mágica, nem engano, nem alucinações individuais ou coletivas. Bastaria a confirmação das percepções pessoais para que algo fosse ratificado como verdadeiro.

Faça o clássico experimento de ilusão térmica com água e outros com os quais conseguimos “enganar” nossas percepções (confira alguns aqui e aqui). Ou tenha uma experiência fora do corpo e perceba como nem tudo no seu quarto continua no mesmo lugar. Assim sendo, por que devemos considerar que a experiência pessoal – por mais que aparente ser real – é infalível para aferir a “realidade”?

Aliás, nossos sentidos nos mostram o Sol girando em torno da Terra, diariamente, e não o contrário. Ninguém, por “experiência pessoal”, concluiria que nosso planeta circunda aquele astro à velocidade de 30km/s, além disso, girando em torno do próprio eixo a 1.700km/h.

Mas uma coisa é fato: as experiências fora do corpo (EFCs) são percebidas como reais, objetivas, não simplesmente imaginadas ou subjetivas. E não se tratam de experiências mais frequentes em indivíduos com quadros de doença psiquiátrica. Imagine-se levantando a mão direita e, em seguida, levante a mão direita. Esta é a mesma diferença entre a experiência de estar fora do corpo e a experiência de imaginar-se fora do corpo.

As EFCs também se apresentam de modo diferente de uma alucinação febril ou sonho, por exemplo. Estes últimos costumam revelar-se “irreais” a partir do momento em que o indivíduo acorda ou retorna ao seu estado de consciência normal. Inversamente, após a EFC característica, a lembrança é de que se estava “acordado fora do corpo”, enquanto o corpo dormia (sem falar de EFCs mais raras que ocorrem ao caminhar, correr, praticar esporte, sofrer um acidente etc).

Real ou não, a EFC não é algo explicável como fruto de simples e corriqueira imaginação.

mente

Outras pessoas, por sua vez, “sabem que não”. Não saímos do corpo e ponto final – são meras experiências alucinatórias. Há pesquisas como a do neurocientista Olaf Blanke produzindo a percepção de que uma prótese é, de fato, parte do corpo da pessoa, ou induzindo EFCs a partir da ativação de determinadas áreas cerebrais.

Mas estas pesquisas não são suficientes para eliminar a hipotética existência de um espírito que sai do corpo, da mesma maneira que produzir a experiência ilusória da mão biológica em uma prótese, ou mesmo a experiência dos membros-fantasma, não é suficiente para negar a existência de mãos ou membros biológicos materiais e objetivos.

Não obstante, um benefício desse tipo de pesquisa é demonstrar como percepções anômalas, incomuns, anormais, podem ser produzidas em indivíduos perfeitamente saudáveis, ajudando a romper uma longa e velha tradição de considerar as EFCs – ainda que sejam apenas percepções alucinatórias – como sendo experiências patológicas, doentias.

Alguns psicólogos como Renauld Evrard investigam diagnósticos diferenciais entre psicopatologias e as chamadas percepções anômalas, o que levou a pesquisadora Christine Simmonds-Moore a cunhar informalmente o termo “happy schizotypes” (esquizotípicos felizes) para descrever pessoas com nível significativo de percepção incomum nas escalas de esquizotipia, embora apresentem pontuações normais ou acima da média nos índices de saúde mental e bem-estar.

Algo semelhante ocorre com os sinestésicos. Quem somos nós para afirmarmos que um Dó Sustenido não pode ser sentido como vermelho ou doce? Ou que a letra A não tem uma textura áspera? Aliás, quem somos nós para considerarmos que um daltônico enxerga “errado”, se outros animais são naturalmente daltônicos e nós, humanos “normais”, tampouco identificamos certas cores discriminadas por outras espécies.

Tratam-se apenas de estímulos ambientais que ativam ou não os sentidos físicos e circuitos cerebrais, de uma forma ou de outra. Portanto, quem somos nós para afirmarmos que uma pessoa está errada, enganada ou iludida, ao sentir-se fora do corpo? Quem disse que o correto é sentir-se “dentro” do corpo?

A EFC, como qualquer outra experiência, não é necessariamente boa ou ruim. Tudo depende do modo como ela é integrada à própria vida (ver por exemplo, meu artigo My First Out-of-Body Experience, no Journal of Exceptional Experiences and Psychology, onde faço uma autoanálise psicológica relacionada à vivência de uma destas experiências).

Os gregos já questionavam as trajetórias anômalas de alguns astros (os “corpos errantes”, “deuses”, hoje conhecidos como planetas). Passaram-se quase dois milênios – graças a novas condições técnicas, teóricas e culturais – para que Copérnico, Galileu, Cassini, Kepler, Tycho Brahe, Newton e outros trouxessem contribuições que nos permitiram chegar ao entendimento atual do Sistema Solar.

Faz pouco mais de um século desde que Albert de Rochas procurou detectar efeitos físicos dos supostos “eflúvios” e do “duplo astral” de médiuns durante experiências extracorpóreas. Mais recentemente, experimentos foram conduzidos, como os da ASPR – American Society for Psychical Research – com Alex Tanous e Miss Z.

Considero que ainda há muita pesquisa a ser feita para podermos concluir se de fato um espírito sai do corpo ou se o fenômeno é exclusivamente cerebral. Se é que um dia não abandonaremos estas hipóteses em favor de outras. E ainda que eu goste de acreditar na imortalidade da alma, não penso que saídas fora do corpo sejam suficientes como prova da imortalidade, assim como a luz projetada por uma lanterna não significa poder, esta mesma luz, se manifestar independente da lanterna.

Enquanto isso, aproveitemos estas experiências, sem a pressa para forçarmos nossas posições espiritualistas ou céticas aos demais. Muito se pode fazer com a vivência extracorpórea, mesmo sem conseguirmos responder à pergunta sobre a objetividade da saída do corpo, da mesma forma que os antigos navegavam utilizando a posição dos astros, do Sol e da Lua, mesmo que não soubessem quem gira em torno de quem, ou sem ter a concepção das estrelas e do céu como os conhecemos na atualidade.

Podemos aprender muito com nossos sonhos, ainda que a ciência não tenha chegado a um consenso sobre o que são eles, como se produzem, por que ocorrem e para que servem. O mesmo vale para a experiência fora do corpo. Seja ela uma “saída real” ou apenas “coisa da cabeça”, isto não a impede de ser uma oportunidade de exploração do universo subjetivo pessoal.


Blogueiro cético ataca pesquisa sobre Chico Xavier

maio 1, 2015

chico-xavier-concienciaPor Flávio Amaral

Com a presença online crescente de visões céticas e ateístas radicais, nem mesmo pesquisas acadêmicas sobre o paranormal estão livres de ataque.

André Luzardo, do Blog Cético, critica um artigo de pesquisa sobre cartas mediúnicas de Chico Xavier publicado no periódico cientifico Explore. Um dos autores é o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, presidente da Seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da WPA (World Psychiatric Association), e coordenador da Seção de Espiritualidade da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Um video sobre a pesquisa pode ser assistido aqui.

O primeiro ponto do qual Luzardo reclama é o fato de o site Globo.com ter dedicado meia página da web e vídeo de 1 minuto e meio para noticiar a pesquisa. Não foi uma coluna no Fantástico, nem uma chamada no Jornal Nacional, nem sequer matéria do jornal impresso. Mas para Luzardo, Moreira-Almeida “está de volta na mídia”, como uma espécie de Uri Geller a abusar da credulidade do público.

O autor questiona a credibilidade do artigo publicado em periódico de fator de impacto 0,935, desconsiderando que cerca de 95% dos periódicos nacionais têm fator de impacto tão ou mais baixo. Nossos cientistas raramente são publicados em uma “Nature” ou “Science” (com fator superior a 30), dificuldade não exclusiva ao Moreira-Almeida. A pesquisa brasileira é mais modesta quando comparada as potencias do primeiro mundo, mas nem por isso de menor qualidade.

Para Luzardo, se Moreira-Almeida estivesse a fazer algo realmente revolucionário, tal achado deveria ter sido apresentado em uma “Nature Neuroscience”. Mas o estudo se restringe a examinar um grupo de cartas escritas por Chico Xavier, e está longe de pretender “comprovar o espiritismo” – como sugere Luzardo. Trata-se de uma contribuição pontual à pesquisa na área. Como em toda ciência, estudos devem ser replicados sob inúmeras condições e autores diferentes para que se possa validar uma teoria solidamente.

Não foram os astrônomos do Vaticano a construírem o modelo heliocêntrico, assim como não serão os céticos a “comprovarem o espiritismo”. Não nos iludamos de que os grupos mais fortes na academia e na indústria irão abraçar de pronto outros tipos de pesquisa alheias às suas agendas. Com frequência uma teoria é sustentada enquanto não se torne insustentável, e as teorias convencionais que explicam a mediunidade como fraude, ilusão ou sorte dão conta da possível esmagadora maioria das alegações populares sobre a paranormalidade, estando longe de serem descartáveis.

A segunda crítica de Luzardo é metodológica. Segundo ele, os pesquisadores fizeram “cherry-picking” ao selecionar apenas 13 das mais de 1.000 cartas de Xavier. Mas foram selecionadas as 13 cartas escritas sobre 1 (um) falecido, o que é normal para um estudo de caso de características exploratórias. Uma pesquisa factível não teve como objetivo avaliar “as” (todas) cartas de Chico Xavier, mas sim aquelas atinentes ao caso específico. Se fossemos utilizar este viés crítico generalizadamente, deveríamos desqualificar a Psicologia Experimental inteira, pois estudos naquele campo usam amostras de conveniência, geralmente estudantes universitários, que estão longe de ser uma representação fiel da população geral.

Luzardo reclama que, pela falta de uma amostra aleatória, “há sempre a possibilidade de que Xavier tenha acertado esse caso por fraude ou apenas por sorte”, quando foi exatamente isso que os pesquisadores da UFJF procuraram investigar. Em seguida, cai na primeira contradição: se no início do parágrafo diz que os pesquisadores deveriam ter escolhido uma amostra aleatória, logo em seguida questiona ser inviável avaliar a veracidade de um evento que ocorreu há 40 anos atrás. Afinal de contas, o que pretende Luzardo? Vale ou não vale analisar as cartas de Xavier? Há quantos anos uma carta ainda seria aceitável como dado de pesquisa? Pois não serão encontradas cartas de Chico Xavier com menos de 15 anos de idade.

Investigação de documentos e aplicação de entrevistas estão entre as ferramentas mais comuns em pesquisa histórica, e sobre fatos muito mais antigos do que apenas quatro décadas. Além do mais, devido a uma tabela sintética do artigo, Luzardo conclui que os pesquisadores se basearam em “informações vagas”, quando seria necessário acessar os textos originais para verificar se elas são realmente vagas no contexto.

Outras inclusões são irrelevantes para a refutação, mas produzem apelo emocional, como por exemplo apresentar Chico Xavier como sendo o “grande amor” de Moreira-Almeida. Tais colocações impressionam o leitor desavisado, igual à plateia que se deixa cativar pelo orador persuasivo.

Através do deboche, Luzardo mostra não dar maior seriedade para acadêmicos que tenham alguma simpatia pela pesquisa dos alegados fenômenos mediúnicos. Mas acredito que se o projeto foi aceito pela FAPESP, e o artigo publicado em uma revista acadêmica, o mínimo que Luzardo poderia ter feito é acessar os dados originais antes de refutá-los tao forçosamente.

Não há nada errado em criticar um trabalho científico ou pesquisador, desde que com a devida fundamentação. Na crítica de Luzardo, os termos “medíocre e irrelevante” surgem mais como ataques gratuitos a Moreira-Almeida do que propriamente conclusões baseadas em evidências. Em outro artigo ele o qualifica como “charlatão e pseudocientista”, e ao seu laboratório, o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), na UFJF, de “centro espírita”. Lá apela para um tom conhecido: “desperdício de dinheiro do contribuinte”. Mas se Luzardo tem evidências de que o NUPES ganha alguma preferência indevida nos editais de pesquisa, que aponte. Enquanto isso, qualquer grupo tem direito a buscar verbas num sistema de livre-concorrência. Finalmente, uma comparação do Currículo Lattes de ambos (link1, link2) sugere a relevância da produção acadêmica de Moreira-Almeida.

Minha preocupação aqui não é defender os resultados da pesquisa. Para tanto eu preferiria ter acesso aos dados originais, antes de emitir um parecer. Mas através da leitura do artigo não cheguei a identificar falhas grosseiras. Entretanto, meu questionamento aqui é sobre o tratamento enviesado dado popularmente para o assunto – tanto por “debunkers” quanto por “believers” – como ocorreu nesta ocasião.

Acredito que o artigo de Luzardo não seja um exemplo de ceticismo, mas de crença arraigada – na inexistência de qualquer tipo de fenômeno “paranormal” – crença esta que se revolta quando vê que estas questões são levadas a sério por alguns cientistas, jornalistas e leitores, não vendo outra solução a não ser tentar ridicularizá-los.

*Em tempo: No dia seguinte à publicação do presente texto, Luzardo apenas comenta no Blog Cético que o artigo é uma “demonstração vívida de fé impedindo as pessoas de raciocinarem criticamente”. Infelizmente ele deleta qualquer resposta minha, por mais suscinta e educada que seja. Deixo para o leitor tirar as conclusões. É um texto baseado em “fé” sem qualquer fundamentação? Você se sentiu “impedido de raciocinar criticamente”?

Para outro debate, mais equilibrado, entre Moreira-Almeida e o jornalista Maurício Tuffani (Folha de S. Paulo), confira os links a seguir:

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/01/23/a-pesquisa-sobre-cartas-de-chico-xavier/

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/02/04/autor-de-pesquisa-sobre-chico-xavier-responde/


Pode a Mediunidade Causar Loucura?

março 21, 2015

Por Flávio Amaral e Tony D’Andrea – 

Uma pergunta frequente que recebemos aqui no Con-Ciencia é se a mediunidade pode causar loucura. Em geral são mulheres preocupadas em ajudar ao próximo, mas que se sentem pressionadas a “trabalharem” a mediunidade sob o risco da “kundalini subir” e causar eventos psicóticos. A popularidade do livro “Emergência Espiritual” do psicólogo transpessoal Stanislav Grof no país paradoxalmente acentuou tais pressões nas espiritualistas brasileiras.

Antes de mais nada, queremos dizer: não se preocupem. No vídeo abaixo, o Flávio explica que mediunidade (trabalhada ou não trabalhada) não causa loucura nenhuma, muito pelo contrário. É preciso entender esta polêmica dentro da história complicada que relaciona psiquiatria e parapsicologia. Nesta trama, as mulheres foram objeto do controle cientifico e moral da sociedade patriarcal. Mas, ainda bem, isso está mudando.

Assista o vídeo produzido por Flávio Amaral para o curso de Parapsicologia e Psicologia Anomalística ministrado por professores da Universidade de Edimburgh.


Pesquisa Laboratorial: Fundamental na Parapsicologia

março 16, 2015

Por Flávio Amaral

Apresento aqui um vídeo com minhas reflexões sobre a pesquisa laboratorial em parapsicologia. Esta abordagem é muito importante, pois busca evidências empíricas sobre o fenômeno paranormal. O vídeo é parte dos meus estudos no curso “Parapsychology and Anomalistic Psychology” coordenado pelos pesquisadores Nancy Zingrone e Carlos Alvarado, doutores em psicologia pela Universidade de Edinburgh. Assista e deixe o seu comentário:

 


Mediunidade, Psicodinâmica e PES: O Caso de Cristina

março 21, 2011

por André Percia de Carvalho e Claudia Escorio G. do Amaral

RESUMO

Nós acreditamos que fatores psicológicos, sociais e culturais em uma médium chamada ‘Cristina’ poderiam esclarecer seus fenômenos psi. Um estudo de seu caso revelou a existência de conflitos não resolvidos da infância, os quais parecem ser relembrados quando ela se depara com um ambiente ameaçador. Esta situação pode ter provocado um rompimento da estrutura da personalidade de Cristina. Observou-se uso de diversos mecanismos de defesa para melhorar esta situação, alguns deles sendo apoiados por crenças culturais e religiosas. Estas defesas, no entanto, não eram fortes o suficiente para proteger Cristina desta situação ameaçadora. Nesse momento, psi parece emergir buscando fornecer informações paranormais de modo a sustentar sua crença cultural e religiosa e permitir que os seus mecanismos de defesa sustentassem um pseudo-equilíbrio que evitasse o rompimento completo de sua personalidade. Ao final ocorreu o desenvolvimento do que os autores denominaram um ‘Mecanismo de Defesa Paranormal’ concomitante à ‘Neurose Psi’. Nossos estudos parecem apoiar a hipótese PMIR de Stanford (Resposta Instrumental Mediada por Psi) de interações psi necessárias ou relevantes bem como reforçar resultados experimentais em psi sobre estados alterados de consciência e sobre a importância da crença para a sua ocorrência.

Em termos simples, a mediunidade pode ser definida como a alegada capacidade de uma pessoa viva de estabelecer uma comunicação com uma ou mais pessoas falecidas (isto é, ‘espíritos’). Há a crença entre os espiritualistas de que esta capacidade permite a um médium se tornar ciente de uma informação a qual ele ou ela não poderia saber por meios normais, assumindo que os espíritos envolvidos tinham acesso a essa informação.

O desenvolvimento da fisiologia, da psicologia e da parapsicologia colocou em xeque estas suposições espiritualistas ao fornecer explanações alternativas. Primeiramente, todos os processos ordinários, por exemplo, a percepção subliminal, a criptomnésia, devem ser eliminados, embora não seja fácil eliminá-los em se tratando de casos espontâneos. Segundo, mesmo que nós possamos eliminar todos os processos normais possíveis ainda existem diversas explanações alternativas a respeito de como a informação poderia ter sido obtida e espíritos é somente uma delas.

A médium a quem nós estamos chamando de ‘Cristina’ parecia apresentar ocorrências espontâneas ostensivas de psi, que foram observadas sob circunstâncias não controladas. Apesar disso, os vários fatores psicológicos, sociais e culturais que pareceram operar neste caso poderiam ser testados em situações experimentais futuras ou durante a investigação de casos espontâneos. O autor sênior (APC) descreveu a situação de vida de Cristina, bem como as suas aparentes ocorrências de psi. A autora júnior (CEA) conduziu as entrevistas clínicas e os testes psicológicos (depois dos quais ela não teve mais nenhum contato com Cristina). Ambos os autores desenvolveram as interpretações dos testes e as considerações teóricas.

CRISTINA

Na época em que eu (APC) escrevi originalmente este artigo (Carvalho, 1991) Cristina tinha 43 anos. Eu a conheço e à sua família desde a minha infância, e naquela época testemunhei diversos fenômenos ostensivos de PES em sua presença. Embora Cristina fosse tradicionalmente católica, tanto a sua mãe quanto a sua avó eram médiuns, embora nunca tenham pertencido a um grupo espiritualista. A mediunidade delas começou espontaneamente e, com o passar dos anos, relataram muitas experiências de PES espontâneas. Tanto Cristina quanto sua mãe me disseram que costumavam se comunicar com os espíritos quando havia alguns problemas na família, quando um amigo estava em dificuldades ou quando algum incidente da vida era de crucial importância para as três.

Quando os ‘espíritos’ estavam pretensamente se comunicando, as três médiuns alegavam entrar em um estado alterado de consciência, quando os seus corpos começavam a produzir movimentos involuntários tais como movimentos rápidos dos olhos. Era então que manifestavam algumas elocuções e maneirismos pessoais dos espíritos. Eu (APC) tive oportunidade de observar este processo diversas vezes. Cristina, quando possuída por um espírito, costumava agitar-se tão violentamente que caía freqüentemente no chão.

Desde que ela era muito jovem, atribuía-se a Cristina várias ocorrências de PES espontâneas, que a permitiam ter acesso a informações por meios não-ordinários. A maioria delas envolvia seus filhos, marido e membros da família com quem ela tinha um vínculo emocional.

Por volta dos 38 anos, Cristina se encontrou com diversas pessoas de grupos afro-brasileiros (Candomblé, Umbanda), que lhe disseram que podiam observar diversos espíritos em torno dela e que estes espíritos queriam se comunicar com ela e com sua família. Nós devemos lembrar que, quando o Brasil era uma colônia de Portugal, os portugueses trouxeram milhões de africanos para trabalhar como escravos. Estes escravos mantiveram suas crenças nos espíritos e disseminaram mais tarde estas idéias uma vez que a escravidão foi abolida. Assim, o Candomblé retém muito dos rituais e das crenças africanas; a Umbanda é um movimento dissidente.

Os médiuns de ambos os grupos alegam ser possuídos por uma variedade de espíritos e quando tal processo ocorre geralmente assumem as características e os comportamentos alegados daqueles espíritos. Uma vez que Cristina tinha identificado os seus próprios espíritos-guia, ela os invocava com freqüência para ajudá-la, e de acordo com seu sistema de crença eles podiam fornecer informações detalhadas sobre determinados incidentes de vida, alguns dos quais ela não tinham nenhum conhecimento precedente.

Agora descreverei diversas ocorrências que testemunhei pessoalmente.

Evento 1

Em uma tarde de 1987, Carlos, um amigo meu, convidou a mim e a Cristina para uma sessão espírita. Quando nós chegamos ao apartamento onde o evento deveria ocorrer, percebi que não conhecíamos nenhuma das outras pessoas presentes. Antes da sessão, Cristina, que estava sentada ao meu lado, disse-me que um de suas guias espirituais (uma cigana) estava tentando se comunicar, e ela começou a exibir um comportamento tal como tremores corporais e movimentos das pálpebras. De repente, Cristina se levantou, andou pela sala de estar e sentou-se ao lado de um homem, Renato, que tinha aproximadamente 50 anos de idade. Ele era um amigo da família que possuía o apartamento mas era um estranho para Cristina e para mim. Cristina começou a fornecer informações detalhadas sobre a vida dele as quais depois ele confirmou serem corretas, por exemplo:

1. Uma descrição detalhada da esposa de Renato, a quem Cristina descreveu como uma mulher atarracada, com uma maneira muito agressiva de lidar com as pessoas, e que freqüentemente caía doente na cama.

2. Que Renato tinha um filho de 13 anos de idade, a quem ela via como exibindo um comportamento problemático, incluindo o uso de maconha e cocaína. Estes detalhes foram confirmados por Renato.

3. Cristina ‘viu’ Renato se submeter a uma cirurgia do coração. Ela disse que isto tinha ocorrido uns 18 meses antes e, depois, ele nos mostrou as cicatrizes.

4. Cristina descreveu uma mulher de meia idade com cabelo preto e disse que ela era a amante de Renato. Ela viu esta mulher freqüentar os rituais da Umbanda destinados a causar dano à esposa de Renato. Outra vez, Renato confirmou a exatidão do relato.

É importante enfatizar que Renato nada sabia sobre a mediunidade de Cristina. Desde o momento em que chegamos, ele estava sentado isolado de todos os demais e não disse nada além de “Olá, fico feliz em conhecê-los” quando nos foi apresentado. Durante as declarações de Cristina sobre a sua vida, ele manteve-se em silêncio, olhando fixamente para ela, e parecia intrigado. Alguns dias mais tarde, Renato me ligou. Ele estava impressionado com a detalhada descrição de Cristina de sua vida particular e me perguntou se eu poderia pô-lo em contato com ela. Ele queria remunerar-lhe os serviços com dólares americanos, esperando que mais detalhes surgissem. Eu agiria como intermediário, mas antes de dar-lhe o número de Cristina liguei para ela. Ela recusou, dizendo que não queria se transformar em uma “psíquica profissional”.

A informação fornecida por Cristina e confirmada por Renato obteve confirmação adicional por Carlos, que visitou o lar de Renato diversas vezes após a sessão em que Cristina e Renato se encontraram pela primeira vez. Durante uma entrevista, Cristina me disse que antes que ela começasse a falar nesse dia, ela sentiu que Renato necessitava de ajuda.

Evento 2

Em junho de 1991 eu passei um mês na Europa. Durante o assim chamado ‘Dia de Portugal’ (um feriado nacional), meu grupo decidiu visitar vários locais perto de Lisboa. Havia quatro de nós: dois amigos portugueses, o filho de Cristina (que também compareceu à conferência) e eu mesmo. Não seguimos nenhuma rota específica, mas visitamos primeiramente um bonito parque verde no distrito de Sintra. Lá observamos algumas crianças brincando em um grande jardim e passamos diversos minutos falando sobre uma planta que se assemelhava a uma galinha ou a um pássaro. Logo após isso fomos ao Cabo da Roca (o ponto mais a ocidente da Europa Continental), onde decidimos comprar alguns presentes para as nossas famílias. Naquela noite, o filho de Cristina e eu decidimos ligar para casa como era nosso costume pelo menos uma vez por semana.

Minha mãe me disse que Cristina visitou-a nesse dia. Subitamente, um dos guias espirituais de Cristina, uma menininha chamada ‘Mariazinha da Praia’ emergiu e disse que seus filhos estavam em um lindo jardim com alguns amigos olhando para um pássaro bonito e que falavam sobre ele. De acordo com a minha mãe, Cristina permaneceu nesse estado por mais de uma hora e meia falando sobre outras coisas e então, de repente, ela disse: “Seu filho está agora em algum outro lugar. Há água . . . um grande mar . . . oh, ele está comprando alguns presentes para você!” É importante dizer que as nossas famílias nunca tinham visitado Portugal, e elas não sabiam sobre o feriado nacional ou os nossos planos para o feriado, planos estes que sequer haviam sido mencionados quando saímos de Lisboa. Nós quatro tínhamos permanecido juntos.

Evento 3

Em um domingo de maio de 1988, eu estava em casa com os meus pais quando Cristina veio para uma visita. Cerca de uma hora e meia após a sua chegada, Cristina inesperadamente interrompeu a agradável conversa que vínhamos tendo e se levantou. Ela começou a apresentar uma tremulação intensa das pálpebras, seus batimentos cardíacos se aceleraram e seu corpo tremia. Então ela voltou-se para mim e disse: “André, eu sinto que alguém está muito nervoso e que está pensando muito em você. Essa pessoa necessita de sua ajuda.” Cristina aos poucos se acalmou e voltamos ao tema da conversa de antes. Uns vinte minutos mais tarde, uma amiga minha ligou. Ela estava muito chateada porque o seu jovem filho tinha acabado de sofrer um acidente e estava prestes a se submeter a uma operação cirúrgica complicada. Como o pai do menino estava em uma viagem de negócios, ela achou que a minha família poderia lhe dar algum apoio. Preciso dizer que Cristina jamais tinha se encontrado esta minha amiga.

Evento 4

Em um sábado de junho de 1988, eu estava na casa de Cristina tendo uma conversa com o seu filho. Ela estava dormindo em sua poltrona na sala de estar. Subitamente ouvimos o ritmo de sua respiração mudar e, quando nos aproximamos dela para observar, vimos que ela estava com os olhos fechados e pressionava as mãos de encontro ao peito, como se sentisse uma forte dor no coração. O marido de Cristina chegou e pensou que Cristina tinha tido um ataque cardíaco. Uns trinta minutos mais tarde, o telefone tocou e fomos informados que o tio de Cristina havia acabado de morrer de um ataque do coração. Ela era muito chegada a ele, embora este tio vivesse em outra cidade. Como um amigo da família de Cristina, fui com eles na viagem até o funeral. Assim que nos encontramos com a tia de Cristina, ela explicou como o seu marido tinha morrido. Primeiro ele havia começado a respirar de uma forma irregular, e então sentiu uma forte dor no coração.

ESTUDO PSICOLÓGICO DO CASO

Uma vez que decidimos explorar como os possíveis processos de psi podiam formar a uma parte dos eventos da vida de Cristina, suspeitamos que uma única série de psicodinâmicas poderia estar operando. Assim resolvemos:

1. Entrevistar a mãe de Cristina.

2. Administrar o teste dos Borrões de Rorschach e o teste CAP (Casa-Árvore-Pessoa).

3. Realizar observações no lar de Cristina.

4. Formular um diagnóstico psicológico.

5. Formular uma hipótese psicodinâmica quanto às pretensas ocorrências de psi.

6. Dar a Cristina o feedback relevante.

Todas as entrevistas psicológicas foram conduzidas em nosso Instituto de Parapsicologia e Clínica Psicológica, ‘Com Ciência’. Os testes de Rorschach e CAP foram devidamente corrigidos de acordo com os padrões internacionais.

Um de nós (CEA) escreveu um relatório formal em que se afirma que a pessoa examinada era uma mulher de 44 anos pertencente à classe média alta brasileira. Ela era casada com um homem de 48 anos e tinham um apartamento, um carro e duas crianças: um filho de 22 anos e uma filha de 20. Ela trabalhava meio expediente como uma professora de aeróbica em uma popular estação de saúde na cidade.

Anamnese (História Passada)

De acordo com a mãe, Cristina nasceu de parto normal sem complicações; ela foi a segunda de seis crianças, tendo elas a seguinte idade na época do estudo: um irmão mais velho de 47 anos, a própria Cristina com 44, um irmão com 40, outro irmão com 37, uma irmã de 34 e a irmã caçula com 32. A lactação veio devidamente após o nascimento de Cristina. Ela aceitava o peito facilmente e foi amamentada até os 3 meses, quando sua mãe decidiu que ela já era velha o bastante para ser desmamada. Ela nunca foi relutante em tentar novas variedades de alimento.

O desenvolvimento das habilidades motoras de Cristina pode ser considerado normal. Embora ela exibisse micção noturna até os 12 anos, os seus pais não prestaram muita atenção nisso porque nunca acharam que fosse um comportamento anormal. Durante a infância Cristina contraiu rubéola, tendo ficado míope embora raramente usasse óculos.

A mãe de Cristina disse que ela se dava bem com seus irmãos e irmãs. Quando criança ela era bem atrevida porque vivia cercada principalmente pelos irmãos.

Cristina teve um relacionamento muito próximo com o pai. Ele era um tanto autoritário e usava de força física para impor os seus desejos. Cristina chorava muito quando era punida por ele, mas chorava também se fosse punida por sua mãe. Seu pai a protegia mesmo depois de ela ter-se casado. Cristina tem um bom relacionamento com a mãe, a quem ela considera uma pessoa calma e paciente.

Com 20 anos, Cristina casou-se com um homem de 24. Ela ficou grávida quatro vezes, sendo duas mal sucedidas. Ela sofreu um aborto depois que a primeira criança nasceu e estava com rubéola durante a quarta gravidez, sofrendo um aborto.

Ao longo dos anos, Cristina submeteu-se diversas vezes a cirurgias, por exemplo, de apendicite, laqueadura, cirurgia no peito para a remoção de cistos e cirurgia plástica em seus peitos, rosto e nariz.

Os pais de Cristina estavam sempre por perto durante a sua vida de casada. O pai interferia às vezes nas discordâncias do casal, ficando freqüentemente do lado de Cristina. Os pais também se empenhavam em satisfazer todos os desejos dos seus netos. Quando ela contava 38 anos, seu pai morreu e esta foi uma grande perda para ela, já que eles eram muito próximos. Foi então que ela começou a exibir um comportamento depressivo e sintomas psicossomáticos, incluindo os cistos em seus peitos, apatia e febres. Ela sonhou com ele freqüentemente por quase um ano. Em um de seus sonhos, seu pai lhe disse que queria levá-la para o seu mundo, mas no sonho ela respondeu que precisava viver a sua própria vida. Depois ela começou a superar sua depressão, embora mesmo agora ela ache difícil viver sem o seu auxílio.

Ainda que Cristina descrevesse o seu relacionamento com o marido como “bom”, uma certa dificuldade em mostrar afeição mútua foi observada em sua vida diária.

Como mãe, Cristina disse que superprotegia os seus filhos como se eles fossem ainda muito jovens, tentando manipulá-los de modo que fizessem o que quer que ela acreditasse que fosse o melhor. Este comportamento é especialmente visível em seu relacionamento com o seu filho, embora Cristina seja ciente sobre a independência deles.

Na época em que este estudo foi conduzido, Cristina fumava muito e fazia uso de pílulas para dormir e para emagrecer regularmente.

A maioria dos amigos de Cristina se compõe dos assim chamados psíquicos profissionais ou de pessoas que acreditam no espiritualismo. Embora às vezes se comporte como uma médium, Cristina diz que não pertence a nenhuma religião e que simplesmente acredita em Deus. Apesar disso, Cristina comparece a diversos rituais religiosos, por exemplo missas católico-romanas e rituais afro-brasileiros. Ela freqüenta psíquicos profissionais regularmente, embora expresse uma forte preferência pelas religiões afro-brasileiras. Ela se sente motivada a se engajar em práticas religiosas quando acredita que os filhos ou o seu marido estão passando por problemas. Ela geralmente começa investigando o que parece estar acontecendo em suas vidas, ou por si própria ou com a ajuda de psíquicos profissionais. Ela desenvolveu o seu próprio código para a interpretação das cartas de um baralho comum, o qual ela usa para fins de adivinhação. Ela também aprendeu a interpretar as ‘cartas ciganas’, usando-as para obter informações sobre as pessoas que lhe são próximas e sobre situações importantes.

Quanto mais Cristina acredita que pode obter informações precisas desta forma, mais calma e mais auto-confiante ela se torna. Todas estas práticas ajudam a diminuir sua ansiedade e a aumentar a sua crença de que pode controlar e manipular o seu ambiente. Parece que seu status como uma médium excepcional é um modo pelo qual Cristina interage positivamente com a sua família e com o seu ambiente social, já que os seus conselhos são muito respeitados. Nós (APC e CEA) observamos freqüentemente as situações em que uma pessoa cética questionou as suas habilidades. Quando Cristina acha necessário responder, ela tenta fornecer informações detalhadas sobre a vida e o futuro dessa pessoa. Cristina acredita também que pode curar as pessoas usando suas ‘energias psíquicas’.

As práticas afro-brasileiras de Cristina estão muito distantes de sua formação católica. Entretanto, quando ela acredita que as suas habilidades psíquicas não são suficientes para resolver os seus próprios problemas, ela vai a rituais católicos. Este padrão de comportamento onde se busca conforto na Igreja Católica é algo que foi passado de geração a geração desde a sua bisavó.

Resultados do teste de Rorschach (por CEA)

[abreviado – Editor]

Cristina apresenta uma personalidade introspectiva, rica em fantasias que são vivenciadas estando ela desligada do mundo exterior. Ela demonstra uma tendência para voltar-se ao pensamento abstrato sob pressão e a ser concisa em suas afirmações. Ela também possui uma tendência a fazer generalizações, focando mais no contexto geral do que em detalhes. Seu potencial criativo é maior do que ela foi capaz de efetuar com realizações concretas. Falta-lhe concentração, o que resulta em um torpor associativo. Ela usa suas fantasias como um mecanismo de defesa que funciona como um contrapeso. Pode-se observar também alguns traços de histeria. Ela é sensível à autoridade e a figuras protetoras.

Resultados do Teste Casa, Árvore, Pessoa (por CEA)

[abreviado – Editor]

Ela tem dificuldade em lidar com a realidade externa e pode se comunicar socialmente somente de uma forma superficial. Ela é intencionalmente instável. Observou-se uma vida instintiva forte, bem como uma dificuldade em manter e equilibrar estes impulsos. Os impulsos são transferidos para o interior de fantasias intensas e por vezes dominarão o seu comportamento. A energia é voltada para manter os seus mecanismos de defesa operando. Alguns potenciais problemas psicossomáticos, tais como aqueles que resultam de forte ansiedade, foram observados, embora não afetassem a estrutura de seu ego ou de sua adaptatividade. Ela se identifica com o papel da mulher convencional. Há alguns impulsos sexuais e corporais fortes e um desejo de mostrar o seu próprio corpo. Ela demonstra certa dificuldade em lidar com a figura masculina e emprega mecanismos de defesa como a manipulação e a sedução.

Hipótese Psicodinâmica

[abreviado – Editor]

Os resultados dos testes confirmaram um padrão comportamental que nós já havíamos observado: Cristina tem pouca habilidade para lidar com frustrações; e isto foi reforçado pelo comportamento permissivo de seu pai, fazendo que cada desejo dela virasse realidade e protegendo-a de todas as formas possíveis de situações difíceis, tais como mortes e acidentes. Nós observamos que Cristina tende a reagir fortemente sempre que os eventos não se sucedem como ela tinha planejado ou desejado.

Nossa hipótese de trabalho começou no momento em que começamos a considerar a sua forte necessidade de evitar situações em que a estrutura de sua personalidade poderia se fragmentar. Ela faz isto ao focar em fatores externos para protegê-la, mas isso acarreta uma estagnação que danifica o seu desenvolvimento psicológico, impedindo uma confrontação direta com os acontecimentos pertinentes.

Nós acreditamos que as acuradas informações adquiridas por suas habilidades mediúnicas e psíquicas desempenhem um papel essencial no processo, ao reforçar seus mecanismos de defesa e ao ajudar a manter um pseudo-equilíbrio que dá coerência às suas atividades. Sendo capaz de profetizar eventos, Cristina tende a controlar o curso de sua vida atual bem como as principais ações da vida de seus familiares.

DISCUSSÃO

Apenas o uso de mecanismos de defesa, alguns dos quais apoiados por fatores culturais e religiosos, não é suficiente para impedir o ocasional rompimento da personalidade. Um exemplo: Cristina acredita que os seus ‘guias espirituais’ possam ajudá-la a superar as suas limitações. Esta opinião é reforçada pela negação de sua incapacidade em assumir o controle total de seu ambiente. Como mencionamos antes, quando forçada a enfrentar situações desagradáveis ou frustrantes, Cristina fica chateada e depressiva e desenvolve ocasionalmente sintomas psicossomáticos.

Neste momento, acreditamos que poderiam emergir os presumidos fenômenos psíquicos, fornecendo feedback que reforça as suas crenças pessoais, culturais e religiosas, mantendo assim os seus mecanismos de defesa. Consideremos, por exemplo, o seu aparente conhecimento das atividades do seu filho em Portugal. Estar separada de seu filho e não ter nenhum controle sobre seu comportamento, controle este que ela tenta exercer quando ele está por perto, gera tensão e ansiedade.

Embora pareça provável que alguns fenômenos psi autênticos estejam ocorrendo, acreditamos que algumas das informações exatas fornecidas por Cristina poderiam ser explicadas com base em sugestões sensoriais, percepção subliminal ou, certamente, em processos cognitivos ordinários. Mas esta conclusão não dever ser nenhuma surpresa, pois uma pessoa com uma condição histérica pode agir como psíquica sem realmente apresentar nenhum fenômeno autêntico de psi. A dificuldade de Cristina em desenvolver relacionamentos interpessoais regulares pode ter contribuído para uma aparente tendência inconsciente em preferir interações psíquicas usando aquelas que são apoiadas pela crença cultural local.

A seguir estão aspectos de atividades mediúnicas no Brasil que podem bem ser condutivos para a emergência de psi genuína, já que são bem conhecidos serem condutivos de psi em experimentos controlados:

1 Antes de contatar os espíritos, alguns médiuns entram em um estado alterado de consciência e permanecem nesta condição enquanto recebem informações aparentemente dos espíritos. Do mesmo modo, há evidência experimental de que tais estados alterados de consciência podem intensificar as ocorrências de psi (Palmer, Honorton & Utts, 1989).

2 Há também uma significativa evidência experimental de que a crença em psi tende a intensificar suas ocorrências (Palmer, Honorton & Utts, 1989). Entre os grupos religiosos no Brasil o conceito de psi é ausente, mas há uma forte crença de que as informações paranormais podem ser obtidas dos espíritos, de Deus, etc., e de que elas podem ajudar as pessoas a resolverem os seus problemas pessoais. Na recente revisão de sua teoria da PMIR (Resposta Instrumental Mediada por Psi), Rex Stanford (1990) descreve algumas características da PMIR que são relevantes para o caso de Cristina. Assim, ele escreve: “Através de psi o organismo pode responder às circunstâncias em seu ambiente das quais não tem qualquer conhecimento sensorial. . . . As respostas mediadas por psi que o organismo faz tendem a servir às necessidades ou a refletir as inclinações desse organismo com respeito às circunstâncias acima mencionadas.” Ele continua: “. . . a força da tendência para produzir a resposta mediada por psi está relacionada direta e positivamente (a) à centralidade e à força da(s) necessidade(s) ou da(s) disposição(ões) que tenham relevância para as circunstâncias acessadas por psi, (b) ao grau de importância do objeto ou evento necessário/relevante, e (c) à escassez de tempo do potencial encontro com o objeto ou o evento necessário/relevante.” Aqui indicamos que Cristina parece usar psi para sustentar o seu comportamento defensivo durante situações que sejam necessárias/relevantes mas as quais ela não pode exercer o seu habitual controle.

Agora gostaríamos de sugerir a existência de um fenômeno que escolhemos chamar como ‘Mecanismo de Defesa Paranormal’ (MDP). Este MDP seria uma extensão do mecanismo de defesa comum em que se observa uma diminuição na ansiedade e estratégias para controlá-la são criadas. No caso estudado, o MDP parece diminuir a ansiedade de Cristina. Os MDPs são uma característica do que poderíamos chamar de uma ‘Neurose Psi’. Isso poderia ser considerado como uma extensão da neurose ordinária de alguém em que psi é um importante elemento que dispara o processo. Elementos culturais tais como crenças religiosas em formas anômalas de obter informação (por exemplo, através da comunicação com os espíritos ou santos) podem ser importantes elementos neste processo, dando uma coerência cultural aceitável ao comportamento neurótico.

O caso de Cristina não é de nenhuma forma original. Nós ouvimos de diversos colegas sobre outros médiuns e praticantes espiritualistas cujas aparentes experiências espontâneas de psi estavam intimamente ligadas à sua psicodinâmica de forma muito semelhante. Em publicações precedentes (Carvalho, 1992), o autor sênior chamou atenção para o modo com que a atividade poltergeist pode servir para proteger ao agente e à sua família de danos psicológicos e físicos.

Os autores reconhecem prontamente que este artigo está baseado em não mais do que uma ‘hipótese de trabalho’; trabalhos adicionais serão necessários para confirmar este nosso modelo atual.

REFERÊNCIAS

Carvalho, A. P. de (1991) As casas mal-assombradas [haunted houses]. In Poltergeists. SP, Brazil: Ibrasa.

Carvalho, A. P. de (1992) A study of thirteen Brazilian poltergeist cases and a model to explain them. JSPR 58, 302-313.

Palmer, J., Honorton, C. and Utts, J. (1989) Reply to the National Research Council study on parapsychology. JASPR 83, 31-49.

Stanford, R. G. (1990) An experimentally testable model for spontaneous psi events, etc. In Krippner, S. (ed.) Advances in Parapsychological Research 6. Jefferson, NC: McFarland.

Referência original: De Carvalho, A. P., & Do Amaral, C. E. G. (1994). Mediumship, psychodynamics and ESP: the case of Cristina. Journal of the Society for Psychical Research, 60, 29-37.


Perguntas e Respostas em Parapsicologia

julho 3, 2010

Por André Percia

– O que é PARAPSICOLOGIA?

Parapsicologia é a ciência que estuda interações anômalas entre organismos que não podem ser explicadas pelas vias sensório-motoras conhecidas exaustivamente descritas pela psicologia e neurofisiologia e tidas como “normais”.

De acordo com o respeitado Psicólogo, pesquisador e escritor Richard Broughton, autor do aclamado livro “Parapsychology”, “Parapsicólogos e seus predecessores que foram chamados pesquisadores psíquicos, resolveram confrontar algumas anomalias da natureza que parecem mais intimamente conectadas com a mente humana. Para fazer isso, conceberam certos constructos como a Percepção Extra-Sensorial (ESP) e a Psicocinesia (PK) como hipóteses para o que pensam estar acontecendo. Desta forma, embarcaram num programa de pesquisa que, indubitavelmente, deve ser a mais longa ativa controvérsia em toda a ciência” (Pág.6).

– Quem pode ser considerado “parapsicólogo”? A parapsicologia é uma profissão?

Essa não é uma pergunta simples de se responder. “Parapsicólogo” é aquele que estuda os fenômenos psi ou paranormais obedecendo a critérios e procedimentos científicos e validados pela Associação Parapsicológica Internacional.

A parapsicologia não é exatamente uma “profissão” convencional, até porque não existe uma graduação convencional internacionalmente reconhecida, embora muitas universidades, inclusive no Brasil, tentaram estruturar uma “faculdade” de parapsicologia. A parapsicologia é uma área de interesse, e os assuntos ou campos desta área têm sido objetos de programas de Pós-Graduação de diversos níveis em muitas universidades de renome mundial, como a J.F. Kennedy, a Universidade de Edinburgh, na Escócia, a Universidade de Andhra, na Índia, a Universidade de Freiburg, na Alemanha entre muitas outras em muitos países.

Estudiosos do assunto fundaram a Associação Parapsicológica (PA) Internacional, e, em nível internacional, considera-se “parapsicólogo” quem é membro desta associação, pois para ser aceito como membro, é necessário que o pesquisador demonstre estar engajado com a abordagem científica do assunto.

No entanto, como não há uma “profissão” ou “formação”, a coisa fica solta. Muitos estudam o assunto, mas não desenvolvem necessariamente um trabalho científico para serem aceitos pela PA e se intitulam “parapsicólogos”.

No geral, há que se verificar se o suposto parapsicólogo está familiarizado com as pesquisas científicas internacionais e se pronuncia de forma ética e responsável dentro de uma abordagem científica sobre o assunto.

– No Brasil, fala-se em correntes “espírita”, “católica” e “científica” da parapsicologia. Qual delas é considerada mais ou menos legítima?

A parapsicologia é uma ciência e, ciência e crenças religiosas são terrenos que não se misturam na elaboração e condução de estudos e pesquisas. Portanto não há sentido em existir uma parapsicologia “espírita”, “católica” ou associada a qualquer religião que seja.

Parapsicólogos podem ter suas crenças pessoais mas jamais – jamais – devem misturá-las com seus estudos, pesquisas e pronunciamentos oficiais enquanto representante da parapsicologia.


Estudantes em Transe Veem Espírito (Caso Itatira)

junho 16, 2010

Por Tony D’Andrea

As aulas em uma escola no interior do Ceará foram suspensas depois que um grupo de alunas entraram em estado de transe coletivo. Elas vinham surtando durante as aulas, afirmando ver o espírito de um estudante falecido sete anos atrás. A diretoria da escola decidiu chamar um psiquiatra e um padre parapsicólogo para uma reunião coletiva, que foi filmada por um dos pais. Durante o encontro, setes pessoas (incluindo alguns pais) surtaram e foram levados ao hospital para atendimento. As aulas foram retomadas alguns dias mais tarde, sem mais incidentes.

O episódio ocorreu na escola municipal Eduardo Barbosa, zona rural de Itatira (221 km de Fortaleza). A diretora afirmou que a prefeitura investigou a possibilidade de envenenamento da água e alimentos consumidos na escola, mas nada de anormal foi detetado.  Conforme os relatos, as jovens ficavam descontroladas, agressivas e não se lembravam de detalhes. “Alguns ficaram com a voz grossa. Pareciam em transe”, afirma a diretora.

O padre e parapsicólogo Élio de Freitas, que investigou o fenômeno no local, afirmou ter conversado com os alunos, constatando que a maior parte delas apresenta problemas familiares e emocionais, o que poderia provocar a histeria coletiva. “A sensibilidade delas está tão alta que uma capta a angústia da outra pelo inconsciente e passa a sentir os mesmos sintomas”, e adiciona, “a comunidade está começando a acreditar que a escola é amaldiçoada, mas se trata de um caso de histeria coletiva ou contágio psíquico”. Esta é também a posição do psiquiatra Adalberto Barreto que acompanhou o caso indiretamente.

Ao meu ver, este caso merece análise detalhada. Transe coletivo pode ocorrer sem referência a crenças espíritas, por exemplo, como resultado de intoxicação farmacológica ou em situações de forte efervescência emocional. No Brasil, o transe ocorre comumente durante cultos mediúnicos ou evangélicos, sendo interpretados conforme o sistema de crenças interno. É provável que estas moças estejam apenas manifestando um mecanismo de contágio emocional mútuo. Interessante mesmo seria examinar o “epicentro” – a primeira pessoa queentrou em transe, e buscar identificar qual a sua situação familiar, antecedentes religiosos e psiquiátricos, sua relação com o estudante falecido, assim como testar a possibilidade de achados extra-sensoriais.

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