Waldo Vieira Morre aos 83 Anos: Trajetória e Legado do Criador da Conscienciologia

julho 3, 2015

Por Tony D’Andrea

02 de julho de 2015 – O fundador da Projeciologia e Conscienciologia, Waldo Vieira faleceu neste dia em Foz do Iguaçu aos 83 anos de idade. Convalescendo de uma operação cardíaca conduzida em São Paulo mês passado, Vieira entrou em coma ao sofrer um derrame em sua residência, e foi levado ao hospital Costa Cavalcanti onde permanecia em tratamento intensivo desde a semana passada.

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Figura proeminente no cenário espiritualista brasileiro, Waldo Vieira renovou o campo de estudos parapsíquicos através da experiência fora do corpo. Professou que esta experiência é método privilegiado para a investigação do mundo extrafísico e subjetivo. Estes estudos resultam na Projeciologia. Vieira posteriormente se concentra no tópico da evolução da consciência, já com um estilo mais prescritivo e valorativo, codificado na Conscienciologia.

Não somente determina o caráter destas “neociências”, Vieira também se destaca como figura central na história do espiritismo e do movimento Nova Era brasileiros, catalisando um campo dinâmico de rearticulações culturais e ideológicas ainda em fluxo.

Carisma na Ciência

Através da história da ciência, novos sistemas são paradoxalmente implementados por lideranças de estilo carismático (Freud, Comte, Einstein, Vieira, etc.). A racionalidade da ciência se contrasta com interferências idiossincráticas de seus fundadores, com desdobramentos institucionais específicos.

Com a morte do líder, este estilo carismático é gradualmente substituído por rotinas institucionais de estilo mais burocrático. Ainda que o futuro da Projeciologia e Conscienciologia esteja em aberto, os efeitos do estilo moralista imposto por Vieira constituem desafios que seus seguidores deverão agora confrontar.

Médico e parapsíquico, Vieira desenvolve um personalidade sui generis ao longo das décadas. Nascido em Monte Carmelo, Minas Gerais, em 18 de abril de 1932, filho do dentista Armante e da professora primária Aristina. Waldo atua no Movimento Espírita do interior de Minas, popular mas em tenso diálogo com o meio predominantemente católico. Ele se forma em odontologia e medicina na Universidade de Uberaba, e cresce como hábil debatedor público e médium de grande popularidade.

Desenvolve uma aparência intencionalmente marcante: vestido de branco, com farta barba de brancura marcante, sobrancelhas agudas, nariz fino, e olhar penetrante. Seus dons parapsíquicos são também notáveis: projetabilidade, mediunidade, clarividência, e manipulação de energias – chanceladas já na época de sua militância espírita.

Tudo isto caracteriza uma personalidade carismática de teor mágico. Waldo Vieira encarna os traços universais do mago-xamã, conforme listados por antropólogos Marcel Mauss e Claude Levi-Strauss. A profissão médica dispõe de forte poder simbólico em tradições mágicas e religiosas: o médico (tal como o xamã) lida com a vida e com a morte, sendo figura central na integração entre o mundo visível e invisível. No Brasil, médicos gozam de elevado status no espiritismo, na direção de centros e entrevistas públicas, na caracterização em novelas espíritas, e em sua influência política e ocupacional.

De Cronista à Profeta

Vieira vinha investigando a fenomenologia parapsíquica desde a década de 1970. Acumula uma biblioteca especializada com mais de 5,000 títulos. De médium espirita, irá se reinventar como pesquisador independente. Associa-se ao American Society for Psychic Research (USA) e a Society for Psychic Research (UK), ainda que comumente criticando colegas anglo-americanos de conservadorismo cientifico.

Sua trajetória se delineia em três grandes fases:

A primeira (kardecista) compreende suas atividades no Movimento Espírita, onde atua como promitente médium e parceiro de Chico Xavier. Escrevem livros mediúnicos e coordenam sessões de assistência para multidões. Entretanto, Vieira se desaponta crescentemente com a ortodoxia kardecista que o desmotiva a estudar seus interesses em “animismo” e “desdobramento”. Ao longo dos anos 1970, ele gradualmente se afasta do Espiritismo, culminando em uma ruptura mais definitiva ao derredor de 1989. Se concentra em pesquisas parapsicológicas que prioriza, simultaneamente ao seu trabalho diário como médico cosmético em Ipanema, Rio de Janeiro.

Na segunda fase (projeciológica), Vieira analisa a fenomenologia extrafísica através de suas habilidades parapsíquicas, registradas em forma de crônicas extracorpóreas. Aqui ele ainda respeita a literatura parapsicológica. Em 1986, ele publica a sua magnum opus Projeciologia: Panorama das Experiências Fora-do-corpo, propondo uma “ciência do estudo do fenômeno da consciência e das energias para além dos limites do corpo físico”. Seguindo uma série de palestras públicas gratuitas em Ipanema, Vieira e associados fundam o Instituto Internacional de Projeciologia em 1989. Com a solidez institucional do IIP, o seu projeto toma uma guinada radical, rompendo com a abordagem fenomenológica, em favor de “assuntos avançados de ponta”, em especial, a “evolução da consciência” e o “serenismo”.

Na terceira fase (conscienciológica), Vieira adota um estilo explicitamente normativo, crescentemente moralista e combativo. Desconsiderando protocolos básicos do modelo cientifico, passa a sistematizar seus julgamentos de valor sobre a conduta evolutiva através de tipologias e terminologias bizantinas. Este processo se amplia após a publicação de seu segundo tomo em 1994, o 700 Experimentos da Conscienciologia, definida como “o estudo da consciência por meio de uma abordagem holística, holossomática, multidimensional, bioenergética, projetiva, autoconsciente e cosmoética.”

Este estilo ganha força com a mudança da sede para o Centro de Altos Estudos da Conscienciologia em Foz do Iguaçu no ano de 2002. Enquanto Vieira decide se afastar de decisões administrativas, o crescimento organizacional em rede começa a gerar atritos entre a nova direção e os antigos pioneiros. O curioso fenômeno dos “dissidentes” se torna comum.

Paradoxalmente, o moralismo conscienciológico de Waldo Vieira indica o afastamento do projeto inicial de se valorizar e construir uma “ciência”. Esta tensão é comum em paraciências em geral. Na passagem do descritivo ao normativo, a maior vítima foi a Projeciologia, relegada de “subdisciplina da parapsicologia” à “aplicação prática da Conscienciologia”.

A maioria dos conscienciólogos afirma que a Projeciologia e a Conscienciologia são independentes do Vieira. A viabilidade destas teria assim se autonomizado. Entretanto, a Conscienciologia se desenvolve na tensão entre a meta de uma ciência universal e a viabilização desta por vias carismáticas. “Dissidentes” lamentam a formação de um culto semirreligioso, enquanto conscienciólogos da casa vislumbram uma paraciência cosmopolita.

 A Próxima Reencarnação

Sendo a reencarnação um princípio da Conscienciologia, o futuro de Waldo Vieira será fonte de especulações. Ao longo dos anos, ele ocasionalmente indicou a sua intenção de reencarnar-se na China. Em contraste com sua personalidade iconoclasta, os elogios são surpreendentes: “A China tem muitos problemas com comunismo e superpopulação. Mas, no geral, é a civilização que melhor trabalha com energias e a questão da serenidade, com muita gente boa trabalhando nisso, parte de sua tradição por muito tempo. E aqui no instituto temos entidades chinesas de alto nível trabalhando em nosso grupo de assistência. Elas tem energias muito positivas e refinadas. Coisa séria.

Não por nada, Vieira e seguidores financiaram a tradução do tratado Projeciologia para o mandarim, distribuindo dois mil exemplares para bibliotecas chinesas gratuitamente. Como afirmou, Vieira espera se deparar com este livro em uma vida futura, ajudando-o assim a recordar de seus esforços espirituais mais prontamente.

Recentemente, contudo, ele fez menção à Angola como possível berço para reencarnação. Tal declaração inusitada parece refletir a situação política interna na Conscienciologia, além de contrariar o arco cosmológico que construiu através das décadas. (Enfim, declarações intempestivas são típicas do líder carismático…). Vale notar, entretanto, que na recente modernização da África, chineses (engenheiros, gerentes, comerciantes, etc.) já compõem 1% da população de Angola.

Futuras gerações de conscienciólogos talvez tentem localizar o novo Vieira, seja como simples especulação intelectual, ou mesmo, através de expedições de busca e identificação à la Dalai Lama. Nesta lógica, Vieira poderá retornar como um chinês estudante de Projeciologia vivendo em uma megalópole asiática; ou, quem sabe, em uma família de engenheiros chineses em Angola…


Guru Sai Baba Falece na India (24 de Abril, 2011)

abril 27, 2011

Por Tony D’Andrea

sathya_sai_babaO guru Sathya Sai Baba, venerado por milhões de pessoas em todo o mundo, morreu neste domingo (24 de abril, 2011). Ele estava internado no Instituto de Ciências Médicas Sri Sathya Sai fundado por ele, perto de Bangalore, onde ele passou as últimas semanas com apoio de respiração e diálise. Com 84 anos, Sai Baba foi o último guru que emergiu do movimento de invasão hippie da Índia dos anos 1970.

A notícia trouxe uma onda de tristeza na Índia, incluindo ministros e celebridades, que lembram dele como uma pessoa caridosa que trabalhava abnegadamente para ajudar os outros, com os bilhões de dólares doados para o seu fundo de caridade. Centenas de milhares de pessoas prestaram sua última homenagem em Puttaparti, onde um funeral com honras de Estado ocorreu na quarta-feira. A polícia manteve um controle  sobre o tráfego rodoviário e as multidões. O comércio foi orientado a fechar, para limitar o número de pessoas na cidade.

A televisão indiana cobriu o evento sem parar. Autoridades e celebridades manifestaram tristeza sobre uma “perda irreparável”. “Sri Satya Sai Baba é um líder espiritual que inspirou milhões de pessoas a levar uma vida moral e significativa”, o primeiro-ministro Manmohan Singh. “A nação lamenta profundamente o seu falecimento.” Estado de Andhra Pradesh declarou quatro dias de luto, onde Sai Baba e’ considerado “um símbolo de amor, carinho e paixão.” “Sri Satya Sai Baba tem dado grande serviço ‘a humanidade”, outro ministro de estado disse.

Nascido 23 de novembro de 1926, como Sathyanarayana Raju, diz-se que Sai Baba era uma criança com tendências para a espiritualidade e inteligência fora do comum, que ele expressava através da música, dança, poesias e peças teatrais. Em 1940, na idade de 14 anos, ele se declarou um “avatar”: a reencarnação de um outro homem sagrado hindu chamado Sai Baba de Shirdi (no Estado de Maharashtra) falecido em 1918.

Comum nas trajetórias de “export gurus” popularizados no ocidente, Sai Baba atraiu muitos seguidores indianos e estrangeiros. A sua casa transformou a pequena vila de Puttaparti em uma vibrante cidade. O “Prasanthi Nilayam” se centra no ashram construído em 1950, evoluindo para incluir um grande hospital, uma universidade e as escolas dirigidas pelo Satya Sai Central Trust, criada em 1972 através de doações.

A sua fortuna – estimada em 9 bilhões dólares – também estabeleceu centros espirituais em Mumbai, Hyderabad e Chennai. Ele construiu outro hospital em Bangalore, onde ele tinha uma casa de verão, e também financiou projetos de abastecimento de água em vários estados do sul. Não se sabe ainda como os espólios do fundo serão usados.

Problemas de saúde nos últimos anos obrigou Sai Baba a reduzir aparições públicas. Ele sobreviveu um derrame cerebral e ataques cardíacos em 1963. Em 2005, ele passou a usar uma cadeira de rodas, e um ano depois, ele fraturou o quadril ao cair de uma cadeira. Os administradores do ashram afirmam que Sai Baba sobreviveu um atentado, matando seis devotos, incluindo o assistente pessoal do guru morto em seu quarto, em Junho de 1993. Fatos do caso ainda permanecem um mistério.

Sai Baba teve uma repercussão enorme, com ashrams em mais de 126 países, incluindo políticos, estrelas de cinema, atletas e industriais. Diz-se que ele fez milagres, materializando jóias, relógios Rolex e “vibhuti” – uma cinza sagrada aplicado às testas dos seguidores, tirada de seu halo de cabelo crespos.

Contudo, ele também foi envolvido em controvérsias, com várias alegações de abuso sexual e falsos milagres. Críticos racionalistas lideraram campanhas contra Sai Baba, chamando-o de charlatão. Há acusações que ele abusou sexualmente devotos – que ela nega como campanhas de difamação. Um programa da BBC em 2004 chamado “Secret Swami” apresenta entrevistas com dois americanos que afirmam que o guru tinha os acariciado sexualmente, se expondo desnudo, alegando que era parte de um ritual de cura. Embora ele tenha negado todas as acusações e nunca foi acusado de nenhum crime, os relatórios levaram vários seguidores a romper com o guru.

Muitos “gurus export” sao acusados, as vezes injustamente, de abusos financeiros, sexuais e de lavagem cerebral. Krishnamurti, Osho e Sai Baba sao casos famosos nesta historia. Uma diferenca e’ que Osho nunca negou a sexualidade como dimensao importante da existencia (tendo secretamente namorado assistentes). Mas com a morte de Sai Baba, termina um linha de gurus que ganharam fama no esteio do movimento contracultural dos anos 60. Muitos hippies e buscadores espirituais no ocidente “invadiram” a India, inadvertidamente gerando uma industria de turismo espiritual, onde modestas cabanas se transformaram hoje em resortes espirituais cinco estrelas. Os melhores exemplos da nova geração de gurus exportação e’ o Sri Ravi Shankar do Art of Living Foundation, e a jovem Gurumayi do Siddha Yoga Foundation, jet-setting entre seus ashrams na região de Nova York e Mumbai.