Blogueiro cético ataca pesquisa sobre Chico Xavier

maio 1, 2015

chico-xavier-concienciaPor Flávio Amaral

Com a presença online crescente de visões céticas e ateístas radicais, nem mesmo pesquisas acadêmicas sobre o paranormal estão livres de ataque.

André Luzardo, do Blog Cético, critica um artigo de pesquisa sobre cartas mediúnicas de Chico Xavier publicado no periódico cientifico Explore. Um dos autores é o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, presidente da Seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da WPA (World Psychiatric Association), e coordenador da Seção de Espiritualidade da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Um video sobre a pesquisa pode ser assistido aqui.

O primeiro ponto do qual Luzardo reclama é o fato de o site Globo.com ter dedicado meia página da web e vídeo de 1 minuto e meio para noticiar a pesquisa. Não foi uma coluna no Fantástico, nem uma chamada no Jornal Nacional, nem sequer matéria do jornal impresso. Mas para Luzardo, Moreira-Almeida “está de volta na mídia”, como uma espécie de Uri Geller a abusar da credulidade do público.

O autor questiona a credibilidade do artigo publicado em periódico de fator de impacto 0,935, desconsiderando que cerca de 95% dos periódicos nacionais têm fator de impacto tão ou mais baixo. Nossos cientistas raramente são publicados em uma “Nature” ou “Science” (com fator superior a 30), dificuldade não exclusiva ao Moreira-Almeida. A pesquisa brasileira é mais modesta quando comparada as potencias do primeiro mundo, mas nem por isso de menor qualidade.

Para Luzardo, se Moreira-Almeida estivesse a fazer algo realmente revolucionário, tal achado deveria ter sido apresentado em uma “Nature Neuroscience”. Mas o estudo se restringe a examinar um grupo de cartas escritas por Chico Xavier, e está longe de pretender “comprovar o espiritismo” – como sugere Luzardo. Trata-se de uma contribuição pontual à pesquisa na área. Como em toda ciência, estudos devem ser replicados sob inúmeras condições e autores diferentes para que se possa validar uma teoria solidamente.

Não foram os astrônomos do Vaticano a construírem o modelo heliocêntrico, assim como não serão os céticos a “comprovarem o espiritismo”. Não nos iludamos de que os grupos mais fortes na academia e na indústria irão abraçar de pronto outros tipos de pesquisa alheias às suas agendas. Com frequência uma teoria é sustentada enquanto não se torne insustentável, e as teorias convencionais que explicam a mediunidade como fraude, ilusão ou sorte dão conta da possível esmagadora maioria das alegações populares sobre a paranormalidade, estando longe de serem descartáveis.

A segunda crítica de Luzardo é metodológica. Segundo ele, os pesquisadores fizeram “cherry-picking” ao selecionar apenas 13 das mais de 1.000 cartas de Xavier. Mas foram selecionadas as 13 cartas escritas sobre 1 (um) falecido, o que é normal para um estudo de caso de características exploratórias. Uma pesquisa factível não teve como objetivo avaliar “as” (todas) cartas de Chico Xavier, mas sim aquelas atinentes ao caso específico. Se fossemos utilizar este viés crítico generalizadamente, deveríamos desqualificar a Psicologia Experimental inteira, pois estudos naquele campo usam amostras de conveniência, geralmente estudantes universitários, que estão longe de ser uma representação fiel da população geral.

Luzardo reclama que, pela falta de uma amostra aleatória, “há sempre a possibilidade de que Xavier tenha acertado esse caso por fraude ou apenas por sorte”, quando foi exatamente isso que os pesquisadores da UFJF procuraram investigar. Em seguida, cai na primeira contradição: se no início do parágrafo diz que os pesquisadores deveriam ter escolhido uma amostra aleatória, logo em seguida questiona ser inviável avaliar a veracidade de um evento que ocorreu há 40 anos atrás. Afinal de contas, o que pretende Luzardo? Vale ou não vale analisar as cartas de Xavier? Há quantos anos uma carta ainda seria aceitável como dado de pesquisa? Pois não serão encontradas cartas de Chico Xavier com menos de 15 anos de idade.

Investigação de documentos e aplicação de entrevistas estão entre as ferramentas mais comuns em pesquisa histórica, e sobre fatos muito mais antigos do que apenas quatro décadas. Além do mais, devido a uma tabela sintética do artigo, Luzardo conclui que os pesquisadores se basearam em “informações vagas”, quando seria necessário acessar os textos originais para verificar se elas são realmente vagas no contexto.

Outras inclusões são irrelevantes para a refutação, mas produzem apelo emocional, como por exemplo apresentar Chico Xavier como sendo o “grande amor” de Moreira-Almeida. Tais colocações impressionam o leitor desavisado, igual à plateia que se deixa cativar pelo orador persuasivo.

Através do deboche, Luzardo mostra não dar maior seriedade para acadêmicos que tenham alguma simpatia pela pesquisa dos alegados fenômenos mediúnicos. Mas acredito que se o projeto foi aceito pela FAPESP, e o artigo publicado em uma revista acadêmica, o mínimo que Luzardo poderia ter feito é acessar os dados originais antes de refutá-los tao forçosamente.

Não há nada errado em criticar um trabalho científico ou pesquisador, desde que com a devida fundamentação. Na crítica de Luzardo, os termos “medíocre e irrelevante” surgem mais como ataques gratuitos a Moreira-Almeida do que propriamente conclusões baseadas em evidências. Em outro artigo ele o qualifica como “charlatão e pseudocientista”, e ao seu laboratório, o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), na UFJF, de “centro espírita”. Lá apela para um tom conhecido: “desperdício de dinheiro do contribuinte”. Mas se Luzardo tem evidências de que o NUPES ganha alguma preferência indevida nos editais de pesquisa, que aponte. Enquanto isso, qualquer grupo tem direito a buscar verbas num sistema de livre-concorrência. Finalmente, uma comparação do Currículo Lattes de ambos (link1, link2) sugere a relevância da produção acadêmica de Moreira-Almeida.

Minha preocupação aqui não é defender os resultados da pesquisa. Para tanto eu preferiria ter acesso aos dados originais, antes de emitir um parecer. Mas através da leitura do artigo não cheguei a identificar falhas grosseiras. Entretanto, meu questionamento aqui é sobre o tratamento enviesado dado popularmente para o assunto – tanto por “debunkers” quanto por “believers” – como ocorreu nesta ocasião.

Acredito que o artigo de Luzardo não seja um exemplo de ceticismo, mas de crença arraigada – na inexistência de qualquer tipo de fenômeno “paranormal” – crença esta que se revolta quando vê que estas questões são levadas a sério por alguns cientistas, jornalistas e leitores, não vendo outra solução a não ser tentar ridicularizá-los.

*Em tempo: No dia seguinte à publicação do presente texto, Luzardo apenas comenta no Blog Cético que o artigo é uma “demonstração vívida de fé impedindo as pessoas de raciocinarem criticamente”. Infelizmente ele deleta qualquer resposta minha, por mais suscinta e educada que seja. Deixo para o leitor tirar as conclusões. É um texto baseado em “fé” sem qualquer fundamentação? Você se sentiu “impedido de raciocinar criticamente”?

Para outro debate, mais equilibrado, entre Moreira-Almeida e o jornalista Maurício Tuffani (Folha de S. Paulo), confira os links a seguir:

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/01/23/a-pesquisa-sobre-cartas-de-chico-xavier/

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/02/04/autor-de-pesquisa-sobre-chico-xavier-responde/


Filme Espírita de Clint Eastwood: Hereafter (Outra Vida)

outubro 30, 2010

Por Tony D’Andrea

Estrelado por Matt Damon, dirigido por Clint Eastwood e co-produzido com Steven Spielberg, o filme Hereafter (Outra Vida) é apresentado pela Warner Brothers como “um drama de três pessoas traumatizadas pela morte. George (Matt Damon) é um operário americano com poderes mediúnicos. No outro lado do mundo, a jornalista francesa Marie (Cécile de France) passa por uma experiência de quase-morte que transforma a sua vida radicalmente durante um tsunami. E quando o menino inglês Marcus (Frank/George McLaren) perde a pessoa mais próxima, ele busca respostas desesperadamente. Cada um em sua senda pela verdade, suas vidas vão se cruzar através do que acreditam além da vida.”

Não é exatamente um “filme espírita de Clint Eastwood” como descrito em alguns blogs brasileiros. Aborda temas de interesse espírita de forma sutil e belíssima, mas não faz afirmações nem alusões proselitistas – até pelo contrario. Assim, não espere por nenhum Nosso Lar. Previsto para estrear no Brasil em fevereiro de 2011, Hereafter já está entre os top 5 campeões de bilheteria em outubro 2010, com 12 milhões de dólares.

Concordo com um dos principais críticos de cinema norte-americano Roger Ebert. Ele nota que Hereafter aborda o tema do após-vida com delicadeza, beleza e tato. Diferente do cinismo que marca suas resenhas, ele confessa surpresa em se ver envolvido pelo filme, “uma estória sobre o sobrenatural que evita comprometer-se com esta possibilidade. Mas o filme admite a consciência após a morte temporária, baseada em relatos de ressuscitados, sobre luzes brancas, entidades esperando, e sentimento de paz.” (Eu passei por esta experiência em 1995, a qual, apesar do susto imediato, me deixou com uma impressão muito boa e tranquila sobre o momento da morte).

“Persuasão não é a intenção do filme”, como Ebert bem observa. O sobrenatural é retratado mais como um espaço de especulações do que um continente conhecido. Assim desapontando nossos clamores por verdades sobrenaturais, “os fantasmas digitais que ocasionalmente flutuam na tela são mais marcos simbólicos do que aparições literais.” Pontos para debates espíritas…

Clint Eastwood, com 80 anos, afirmou em entrevista ao LA Weekly, “Há um aspecto de charlatanismo sobre o após-vida, pois a humanidade se recusa a aceitar que esta vida é a única que temos. Eu não tenho a resposta. Talvez existe um mundo espiritual, mas eu não sei, então eu me aproximo do tema sem saber. Eu apenas conto uma estoria.” (Eastwood nota que o o roteirista do filme Peter Morgan não acredita em vida após a morte). Como Ebert bem observa, este é um filme sobre como o amor nos torna carentes de uma vida após a morte.

O foco de Eastwood é com a vida dos personagens que vivem, não com os espíritos.

Para além da beleza existencialista do filme, há certo consenso entre críticos e audiência que, apesar da premissa provocante, Hereafter não gera um drama eletrizante, mas devagueia entre forte sentimentalismo e um certo tedio meloso. O filme tem um ritmo saturnal caracteristicamente Eastwoodiano,  como visto em Million Dollar Baby e Gran Torino.

De qualquer forma, é raro ver as distraídas audiências norte-americanas chorando durante um filme sobre o sobrenatural. Concordo ainda com Ebert que “Hereafter é um filme para pessoas inteligentes que são naturalmente curiosas sobre o que acontece quando as persianas se abaixam.”  Não perca. Assista ao trailer, e deixe seu comentario no Con-Ciencia.