Blogueiro cético ataca pesquisa sobre Chico Xavier


chico-xavier-concienciaPor Flávio Amaral

Com a presença online crescente de visões céticas e ateístas radicais, nem mesmo pesquisas acadêmicas sobre o paranormal estão livres de ataque.

André Luzardo, do Blog Cético, critica um artigo de pesquisa sobre cartas mediúnicas de Chico Xavier publicado no periódico cientifico Explore. Um dos autores é o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, presidente da Seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da WPA (World Psychiatric Association), e coordenador da Seção de Espiritualidade da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria). Um video sobre a pesquisa pode ser assistido aqui.

O primeiro ponto do qual Luzardo reclama é o fato de o site Globo.com ter dedicado meia página da web e vídeo de 1 minuto e meio para noticiar a pesquisa. Não foi uma coluna no Fantástico, nem uma chamada no Jornal Nacional, nem sequer matéria do jornal impresso. Mas para Luzardo, Moreira-Almeida “está de volta na mídia”, como uma espécie de Uri Geller a abusar da credulidade do público.

O autor questiona a credibilidade do artigo publicado em periódico de fator de impacto 0,935, desconsiderando que cerca de 95% dos periódicos nacionais têm fator de impacto tão ou mais baixo. Nossos cientistas raramente são publicados em uma “Nature” ou “Science” (com fator superior a 30), dificuldade não exclusiva ao Moreira-Almeida. A pesquisa brasileira é mais modesta quando comparada as potencias do primeiro mundo, mas nem por isso de menor qualidade.

Para Luzardo, se Moreira-Almeida estivesse a fazer algo realmente revolucionário, tal achado deveria ter sido apresentado em uma “Nature Neuroscience”. Mas o estudo se restringe a examinar um grupo de cartas escritas por Chico Xavier, e está longe de pretender “comprovar o espiritismo” – como sugere Luzardo. Trata-se de uma contribuição pontual à pesquisa na área. Como em toda ciência, estudos devem ser replicados sob inúmeras condições e autores diferentes para que se possa validar uma teoria solidamente.

Não foram os astrônomos do Vaticano a construírem o modelo heliocêntrico, assim como não serão os céticos a “comprovarem o espiritismo”. Não nos iludamos de que os grupos mais fortes na academia e na indústria irão abraçar de pronto outros tipos de pesquisa alheias às suas agendas. Com frequência uma teoria é sustentada enquanto não se torne insustentável, e as teorias convencionais que explicam a mediunidade como fraude, ilusão ou sorte dão conta da possível esmagadora maioria das alegações populares sobre a paranormalidade, estando longe de serem descartáveis.

A segunda crítica de Luzardo é metodológica. Segundo ele, os pesquisadores fizeram “cherry-picking” ao selecionar apenas 13 das mais de 1.000 cartas de Xavier. Mas foram selecionadas as 13 cartas escritas sobre 1 (um) falecido, o que é normal para um estudo de caso de características exploratórias. Uma pesquisa factível não teve como objetivo avaliar “as” (todas) cartas de Chico Xavier, mas sim aquelas atinentes ao caso específico. Se fossemos utilizar este viés crítico generalizadamente, deveríamos desqualificar a Psicologia Experimental inteira, pois estudos naquele campo usam amostras de conveniência, geralmente estudantes universitários, que estão longe de ser uma representação fiel da população geral.

Luzardo reclama que, pela falta de uma amostra aleatória, “há sempre a possibilidade de que Xavier tenha acertado esse caso por fraude ou apenas por sorte”, quando foi exatamente isso que os pesquisadores da UFJF procuraram investigar. Em seguida, cai na primeira contradição: se no início do parágrafo diz que os pesquisadores deveriam ter escolhido uma amostra aleatória, logo em seguida questiona ser inviável avaliar a veracidade de um evento que ocorreu há 40 anos atrás. Afinal de contas, o que pretende Luzardo? Vale ou não vale analisar as cartas de Xavier? Há quantos anos uma carta ainda seria aceitável como dado de pesquisa? Pois não serão encontradas cartas de Chico Xavier com menos de 15 anos de idade.

Investigação de documentos e aplicação de entrevistas estão entre as ferramentas mais comuns em pesquisa histórica, e sobre fatos muito mais antigos do que apenas quatro décadas. Além do mais, devido a uma tabela sintética do artigo, Luzardo conclui que os pesquisadores se basearam em “informações vagas”, quando seria necessário acessar os textos originais para verificar se elas são realmente vagas no contexto.

Outras inclusões são irrelevantes para a refutação, mas produzem apelo emocional, como por exemplo apresentar Chico Xavier como sendo o “grande amor” de Moreira-Almeida. Tais colocações impressionam o leitor desavisado, igual à plateia que se deixa cativar pelo orador persuasivo.

Através do deboche, Luzardo mostra não dar maior seriedade para acadêmicos que tenham alguma simpatia pela pesquisa dos alegados fenômenos mediúnicos. Mas acredito que se o projeto foi aceito pela FAPESP, e o artigo publicado em uma revista acadêmica, o mínimo que Luzardo poderia ter feito é acessar os dados originais antes de refutá-los tao forçosamente.

Não há nada errado em criticar um trabalho científico ou pesquisador, desde que com a devida fundamentação. Na crítica de Luzardo, os termos “medíocre e irrelevante” surgem mais como ataques gratuitos a Moreira-Almeida do que propriamente conclusões baseadas em evidências. Em outro artigo ele o qualifica como “charlatão e pseudocientista”, e ao seu laboratório, o NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), na UFJF, de “centro espírita”. Lá apela para um tom conhecido: “desperdício de dinheiro do contribuinte”. Mas se Luzardo tem evidências de que o NUPES ganha alguma preferência indevida nos editais de pesquisa, que aponte. Enquanto isso, qualquer grupo tem direito a buscar verbas num sistema de livre-concorrência. Finalmente, uma comparação do Currículo Lattes de ambos (link1, link2) sugere a relevância da produção acadêmica de Moreira-Almeida.

Minha preocupação aqui não é defender os resultados da pesquisa. Para tanto eu preferiria ter acesso aos dados originais, antes de emitir um parecer. Mas através da leitura do artigo não cheguei a identificar falhas grosseiras. Entretanto, meu questionamento aqui é sobre o tratamento enviesado dado popularmente para o assunto – tanto por “debunkers” quanto por “believers” – como ocorreu nesta ocasião.

Acredito que o artigo de Luzardo não seja um exemplo de ceticismo, mas de crença arraigada – na inexistência de qualquer tipo de fenômeno “paranormal” – crença esta que se revolta quando vê que estas questões são levadas a sério por alguns cientistas, jornalistas e leitores, não vendo outra solução a não ser tentar ridicularizá-los.

*Em tempo: No dia seguinte à publicação do presente texto, Luzardo apenas comenta no Blog Cético que o artigo é uma “demonstração vívida de fé impedindo as pessoas de raciocinarem criticamente”. Infelizmente ele deleta qualquer resposta minha, por mais suscinta e educada que seja. Deixo para o leitor tirar as conclusões. É um texto baseado em “fé” sem qualquer fundamentação? Você se sentiu “impedido de raciocinar criticamente”?

Para outro debate, mais equilibrado, entre Moreira-Almeida e o jornalista Maurício Tuffani (Folha de S. Paulo), confira os links a seguir:

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/01/23/a-pesquisa-sobre-cartas-de-chico-xavier/

http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/02/04/autor-de-pesquisa-sobre-chico-xavier-responde/

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7 Responses to Blogueiro cético ataca pesquisa sobre Chico Xavier

  1. […] Minha análise sobre a crítica de Luzardo à pesquisa de Moreira-Almeida sobre cartas psicografadas…. […]

  2. Ana disse:

    Ola Flavio, gostei muito do seu texto. Pra mim, somente a comparacao dos curriculos dos dois ja da uma ideia da dimensao da coisa kkkk. Li alguns textos do blog cetico e pra mim ja deu. Um graduado em matematica que nao atualiza o lattes ha tres anos vem criticar a experiencia cientifica de um cara com anos de vivencia em psiquiatria, e ainda chama o laboratorio dele de “centro espirita”. Eh pra rir, isso.?? kkkkkk. Sou cientista, botanica pra ser mais exata, e nao aguento essa onda de “ceticos” que se acham e condenam tudo e todos de nao pensar “logicamente”. O que seria do ser humano se ele nao explorasse alem do que nosso cerebro acredita ser “logico” e “racional”? Bulshit!

    • flavioamaral disse:

      Obrigado Ana!
      Pois é. Acho que o autor não entendeu que pode ter pós-doutorado em certa área mas uma opinião no nível do senso comum em outra. Ao invés de descer do salto e se informar, já entra com senso de superioridade, e aí é que evidencia a própria arrogância.

    • emerson disse:

      Quem se acha os donos da verdade são os espiritas, sendo que é a religião mais falsa que existe, pois tentou sem sucesso ser científica, e vivem de fraudes e mentiras até hoje.

  3. Fernanda disse:

    Texto cheio de falácias, aos montes. Falsas afirmações que parecem verdade.
    Vamos aos seus argumentos:
    1 – A maioria das pesquisas estão em revistas de baixo impacto.
    Estão mesmo. Mas a maioria das pesquisas não tenta fazer a descoberta do século. São revisões de bibliografia, estudos de casos que confirmam o que já se sabe, etc. Não são descobertas do tipo “provei que o sobrenatural existe”. É isso que o autor critica.
    2 – Não foram astrônomos do Vaticano a construires o modelo heliocênctrico. Grupos fortes na academia não irão abraçar pesquisas alheias à sua agenda.
    Bom, não foi um astrônomo do Vaticano, mas não foi um ateu. Se as bases científicas fossem sólidas, o pesquisador pode ser da religião que ele quiser, ainda fará ciência. Cada grupo de pesquisa irá sim pesquisar aquilo que tem mais interesse e esse interesse é particular do orientador da pesquisa. Nem só do que quer a indústria vivem as Universidades, principalmente as Federais. Temos Cnpq, Capes etc. O problema não foi o tal pesquisador abraçar essa temática. Ótimo que ele o fez, mas infelizmente não foi ciência.
    3 – “Afinal de contas, o que pretende Luzardo? Vale ou não vale analisar as cartas de Xavier? Há quantos anos uma carta ainda seria aceitável como dado de pesquisa? ”
    Hahaha…é brincadeira isso. Ele disse que um estudo que se preste a dizer o que eles quiseram dizer, deveria sim utilizar mais dados. Mas nesse caso, nem dados adicionais adiantariam, pois não é possível confiar na memória de uma senhora de 70 anos de idade que se beneficiou com toda a fama das cartas. Se você quis distorcer, aí já é problema seu.

    Ah, quer saber? Se eu for expor todas as falácias vou ficar aqui até amanhã e estou ocupada. Não cheguei nem à metade do seu texto e já tem falácias e mais falácias.
    Dá canseira ler uma argumentação tão pobremente elaborada.

    • flavioamaral disse:

      Olá Fernanda, já que você sentiu canseira, descanse, recupere o fôlego, e leia novamente com atenção. Normalmente sempre respondo nas redes sociais, e não apago as críticas como faz o Luzardo, mas no seu caso, considero que as respostas às suas refutações estão lá no próprio texto, então acredito não ser necessário repeti-las. Até por que pelo seu nível de agressividade e abuso de frases de efeito, algo me diz que seria improdutivo. Você parece motivada a “criar monstros”, distorcer o que diz o interlocutor, para poder criticar. Se quiser retornar civilizadamente uma próxima vez, estou às ordens. Obrigado pela audiência!

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