Nosso Lar: Shangri-lá da Era Vargas?


Por Tony D’Andrea

Estreia hoje (Set 03, 2010) o filme “Nosso Lar” a nível nacional, baseado no livro psicografado de Chico Xavier publicado em 1944. Este é  um clássico do Espiritismo (e um dos meus favoritos de juventude). O filme parece ser muito bem feito, retratando fielmente o livro, o primeiro de Chico Xavier. Para quem não leu ou não se lembra de “Nosso Lar” aqui vai uma sinopse:

“Publicado em 1944, Nosso Lar é o primeiro dos 15 livros psicografados por Chico Xavier (1910-2002) pelo espírito do médico André Luis. De lá para cá, já está na 60ª edição e tem mais de dois milhões de exemplares vendidos, apenas no Brasil. Estima-se tenha sido lido por mais de 16 milhões de pessoas. Traduzido para várias línguas, entre elas o inglês, francês, alemão, espanhol, esperanto, japonês, russo, mandarim, grego e até em braile, é catalogado com um dos 10 melhores livros do século XX, sendo o recordista da literatura espírita.

“O livro conta a vida após a morte do médico André Luis que, apesar de saber estar desencarnado, sente fome, sede e frio, e se depara com um lugar assustador e tenebroso, o Umbral, para o qual vão os espíritos das pessoas com pesados atos na vida terrena. Ao resignar-se a uma jornada de autoconhecimento, transformação e resignação de sua condição, André Luis pede ajuda, sendo então resgatado e encaminhado à cidade espiritual Nosso Lar, situado nas camadas mais altas da atmosfera terrestre. Lá ele descobre que a vida continua para todos e que haverá um novo retorno a Terra no processo de reencarnação.” (Fonte: Blog de Cinema, Diário do Nordeste, 23/08/2010 por Pedro M. Freire)

Tendo lido diversas abordagens sobre colonias espirituais (R. Monroe, Blavatsky, Bardo Todol, Lobsang Rampa, W. Vieira, etc.), fica claro que o “Nosso Lar” expressa uma leitura bem brasileira e bem anos 1940 sobre o mundo espiritual: Xavier dá forte enfase ‘a estrutura burocrática (incluindo departamentos de censura!) e hierarquias lideradas por doutores, particularmente médicos, expressando o bacharelismo como traço da cultura brasileira. A conexão básica: 1944 (publicação do livro) = fim da ditadura Vargas…

Se escrito nos anos 2000, “Nosso Lar” possivelmente faria uma leitura diferente de colonias espirituais: ressaltando, por exemplo, aspectos de globalização multicultural, caos urbano, mobilidade digital, descentralização administrativa e cooperativa, etc.  Enfim, “Nosso Lar” aborda um tema universal (colonias espirituais) mas lida através de uma ótica particular, modernista e pietista de Chico Xavier, refletindo a historia do Brasil no fim da era Vargas e II Guerra Mundial.

“Nosso Lar”: uma visão de Shangri-lá espiritual durante os anos Vargas?…

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6 Responses to Nosso Lar: Shangri-lá da Era Vargas?

  1. Gostei de todos os posts. Muito bem observado aí pelo LT e pelos demais a patética analogia entre os “maus” que no mundo são punidos, e esses mesmos maus, que, em Nosso Lar, ficam igualmente, relegados aos umbrais lodacentos e fétidos, enquanto os “bons” têm direito à roupas limpas, boa comida, e pasmem! Até adquirir uma casa própria! Será q a Dilma mandou para lá o Programa Minha Casa Minha Vida? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Gente, gente… É patético, se não fosse trágico!

    Está muito claro em Allan Kardec (O Livro dos Espíritos e O Céu e o Inferno) que os sofrimentos dos Espiritos (narrados pelos mesmos, desde que não sejam INFERIORES), se resumem a sofrimentos morais!!

    Portanto, é tudo muito simples: o que são, ou melhor, onde estão todas essas casas, vestuários, comidas, prédios da administração, senão na “mente” de todos esses Espíritos ILUDIDOS? Sim! Iludidos com a matéria, dirá Allan Kardec. E o próprio André Luiz foi um Espírito iludido quando fez tais narrativas em Nosso Lar e em toda a coleção que se segue, tendo este livro como ponto de partida.

    Um Espírito pseudo-sábio, portanto, que viu e narrou, aquilo que ele mesmo acreditava.

    Deixem-me lhes dizer uma coisa: a reencarnação, não termina com a morte do corpo (Está lá também, no LE e no Céu e o Inferno). A maioria desses Espíritos que estão CRIANDO A IDÉIA de estarem morando em uma cidade espiritual, estão vivendo isso como prova! Qual prova? A prova de acreditarem que são Espíritos, ou que são seres humanos.

    De fato, mesmo a vasta bibliografia de livros mediúnicos, de André a Victor Hugo e Manoel Philomeno de Miranda, narra os padecimentos dos Espíritos Humanizados, ou seja, aqueles que perderam o corpo físico, mas em suas mentes, continuam acreditando que são seres humanos. Acreditam que tem haveres, amores, amigos e inimigos e tudo o mais que nós mesmos, aqui na Terra, acreditamos.

    Nosso lar – tanto o filme quanto o livro – representa bem qual é a mentalidade do movimento espírita atual. Eles – os espíritas – invertem a “coisa”: para eles, o “mundo espiritual” é feito à imagem e semelhança do mundo terreno. Mas, para se justificarem, valem-se de uma hábil estratégia, que foi aprendida com o “mestre” André Luiz: se o perispírito é que molda o corpo físico, então o mundo terrestre não passa de um pálido reflexo do que eles chamam de “mundo espiritual”. Quer dizer – argumentam eles – tudo o que tem aqui, tem lá, mas de forma mais perfeita, mais… mais “quintessenciada” (Risos).

    O sábio Emmanuel, com toda razão, absteve-se de fazer tais comentários, de discorrer eloqüentemente sobre essas fantasias e ilusões dos Espíritos Humanizados, mas, permitiu, que André Luiz e outros o fizessem, como PROVA para os humanos, e sobretudo como prova para os próprios espíritas.

    No item 6, da Introdução de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec diz que “O Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos, é o mundo normal, primitivo e eterno. Existiu de todo o sempre e continuará existindo; o mundo material é secundário, poderia deixar de existir ou nunca ter existido sem que com isso afetasse a essência do MUNDO ESPIRITUAL”.

    Então, gente, vejam como é fácil: esse “mundo espiritual” descrito em Nosso Lar, o que é senão um “mundo material” que “poderia deixar de existir ou nunca ter existido sem que com isso afetasse a existência do MUNDO ESPIRITUAL”?

    Mas, como assim? É simples! Voltemos novamente a Allan Kardec, O Livro dos Médiuns agora: todas essas construções, são construções fluídicas, podendo ser destruídas a qualquer momento. Mas, então surge um questionamento que foi colocado a Berkeley, já naquela época: como então, se explica que todos estejam vendo as mesmas coisas? Porque todos estão iludidos.

    O Tony aí que é antropólogo sabe muito bem que, as idéias, conceitos e noções que temos a respeito do mundo e de nós mesmos, são construções simbólicas da razão operadas num contexto em que, a Ideologia Dominante, torna dominantes e reais as suas idéias, haja vista que são cridas como verdadeiras pela maioria.

    Tais idéias se adentram pelo túmulo, fazendo a maioria dos Espíritos que “não se desligaram da matéria” (linguagem imprópria de Allan Kardec, o correto seria dizer “os Espíritos que não se desligaram das IDÉIAS MUNDANAS) acreditarem que são homens e não Espíritos. De fato, a maioria dos desencarnados não sabem o que são, e por isso mesmo pedem outra reencarnação, para, em contato com MAYA, discernir a ILUSÃO da REALIDADE, coisa que poucos conseguem.

    Nosso Lar, portanto, descreve apenas o MUNDO DE MAYA em outro plano, longe, muito longe de ser o verdadeiro MUNDO DOS ESPÍRITOS, pq este, como disse Jesus, “já está dentro de vós”.

    Abçs,

  2. ana disse:

    Comecei a ler o livro Nosso Lar com o maior interesse, pois creio na veracidade da psicografia. Mas a medida em que fui avançando fui ficando absurdada. Realmente, uma visão super burocrática e etnocêntrica (com centro na cultura européia). O autor chega a comparar a fundação da colônia Nosso Lar com o que fizeram os europeus quando foram ao novo mundo (mas sem violência, frisa), caracterizando a colonização como um colocar de ordem em um bando de selvagens inferiores. Fiz uma procura na internet para ver se alguém partilhava do meu sentimento. Achei este post, que expressa bem a sensação que eu estava tendo.

  3. LT disse:

    Li alguns comentários sobre o filme na lista VOADORES. Algumas análises focam os aspectos técnicos do filme, como a qualidade das animações e as deficiências da produção. Outras análises focam na fidelidade e adequação das adaptações feitas no filme ao livro original. Existem ainda as análises relativas à representação que se faz do mundo espiritual e ao ideário espírita. Considero essa última a análise mais relevante. Independente de se a realidade espiritual é ou não igual à retratada no filme, de fato fica muito evidente a estrutura organizacional e política burocrática do projeto desenvolvimentista brasileiro da década de 40-50. Há uma forte caracterização de um ideal de pureza e beleza “europeizados” (inclusive a música que é tocada). E também fica evidente a estratificação social baseada na “moeda espiritual” do mérito e da pureza de sentimentos. Aqueles que possuem emoções mais terrenas, carnais ou conflituosas ficam na lama do umbral, e aqueles que sublimam essas emoções ascendem espiritualmente e gozam de casa boa, comida, roupa branquinha lavada, entretenimento e beleza. A responsabilidade por essa mobilidade social no mundo espiritual recai totalmente sobre o indivíduo. Não há nenhuma responsabilização do sistema, que é tomado como absoluto e correto. Lembra bem a ideologia liberal que fundamenta o capitalismo…

  4. Antonio Augusto disse:

    Além do mais ressalta lembrar que essas situações de caos urbano, fazem sentido em planos primários de evolução espiritual.
    Se “Nosso Lar” é habitado por espíritos elevados, faz todo sentido ter-se essa estrutura social tão organizada.
    É digno de nota que a perspectiva da sobrevivência após a morte modifica radicalmente a escala de valores do indivíduo. Isso tem uma importância fundamental para tal estrutura social.

  5. Antonio Augusto disse:

    Em minha opinião, teorizar não adianta muito. Para sabermos disso precisamos nos ater a fatos e não a especulação. Caso se tenha recursos para comprovar por fatos se essa é a estrutura de “Nosso Lar” aí sim teremos como afirmar. Caso não se tenha, aí não vai além da mera especulação. Allan Kardec faz uma proposição muito sábia sobre o tema desse post: “os fatos: eis o verdadeiro critériodo homem sábio para discernir entre o erro e a impostura.

  6. alexandrerosado disse:

    De fato nunca tinha pensado sob este ângulo. De fato a ênfase é na estrutura burucrática da colônia e seus processos de gestão da “passagem” para o mundo espiritual. É claro que quando se faz o filme nos anos 2000, era dos efeitos digitais, teremos alguns toques mais refinados nas tecnologias descritas, embora não sejam nada diferentes das tecnologias dos anos 40. Talvez a justificativa dada pelos espíritas é que como estamos em uma colônia de recepção e transição, ela deve obedecer os padrões terrestres e ter contornos familiares aos que morreram. Isso seria uma desculpa padrão para algo que é evidente no livro. Gostei muito do post.

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