A questão do “fim dos tempos” renovada


Por Alexandre Rosado

É do imaginário popular, volta e meia retornando com força e travestido sempre de temores e esperanças, que a questão dos “tempos finais” toma conta dos noticiários e nos aponta para inúmeros grupos, seitas, religiões e profetas.

A idéia básica desta narrativa, o que há de comum entre elas, é a de que a Terra deve passar por algum tipo de transição, algum processo inicialmente doloroso, catastrófico, para depois recuperar-se e se tornar um paraíso. A versão mais atual tem sido aquela em que o fim do mundo (ou recomeço?) estaria com data marcada para 2012, envolvendo inúmeras lendas relativas ao calendário deixado pelo povo pré-colombiano Maia. No filme “2012”, produção americana de 2009, este imaginário ganha força com o apoio da física e da geologia através da previsão de catástrofes que não deixam nenhum sobrevivente no planeta (a não ser os que pagam fortunas para se salvar).

Calendário Maia, uma charge.

Pude acompanhar o desenvolvimento desse imaginário nos grupos de ufologia que visitei inicialmente como curioso e depois como pesquisador durante os anos 90. Nessa época a questão do “planeta intruso”, um suposto planeta que de milênios em milênios entra no sistema solar e causa distúrbios nos centros de gravidade dos planetas, estaria vindo completar mais um ciclo, sendo chamado de Nibiru. A data na época, para o “fim e recomeço dos tempos” era 1999. Lembro que o porta-voz do grupo ufológico era a entidade espiritual Ramatís, muito conhecido no meio espírita pelos inúmeros livros psicografados por Hercílio Maes, especialmente a obra escrita no formato de perguntas e respostas cujo título é “Mensagens do astral”. Mais e mais ‘provas” eram mostradas sobre este suposto planeta, inclusive na internet fotografias eram exibidas dizendo ser a captura de tal planeta já próximo ao sistema solar.

Pois bem, porque falo tudo isso? Estou ligando essas pontas para poder dizer a respeito do que foi convencionado como “Reurbanizações extrafísicas” pelos estudiosos da Conscienciologia, campo que me especializei nos últimos 10 anos. A reurbanização, como o nome diz, é uma reforma geral em que se recupera distritos degradados. A imaginário Terra degradada x Terra reconstruída tomou novamente forma nesta narrativa de mudança planetária. Nela a mudança é “tecnicamente” explorada na obra publicada por Waldo Vieira chamada “Homo sapiens reurbanisatus“.

Vejamos alguns detalhes… No livro são feitos inúmeros estudos a partir de matérias de jornais e revistas, periódicos jornalísticos, minuciosamente agrupados e classificados por assuntos, dando uma aparência mais científica (em termos de organização dos dados empíricos) para esta versão renovada de fim dos tempos. No livro também são descritos, inclusive, 100 tipos de personalidades, devidamente caracterizadas por traços de patologia, que estariam circulando entre nós a partir do movimento reurbanizador, intensificado a partir dos anos 50 do século XX, segundo a teoria de Vieira.

Interessante notar que o livro “Mensagens do Astral” também é da década de 1950, se referindo de maneira profética a um futuro próximo bem turbulento. Não deixa de ser uma boa teoria quando se aborda pelo ponto de vista espírita, em que a dimensão extrafísica interfere e forma um sistema mutuamente influente com a dimensão em que vivemos (eu aqui admito, como paradigma de pesquisa, a dimensão extrafísica como existente e podendo ser acessada pelos chamados fenômenos parapsíquicos). Resumindo: o fim dos tempos e recomeço regenerador, nesta nova versão, resite no fato de pessoas com personalidades degradadas em locais extrafísicos de baixo nível (umbral) renascerem aqui em nossa dimensão, aumentando o nível de atrocidades e atos imorais em escala crescente, até um ponto de saturação e mudança para melhor, progressiva.

Mesmo que Vieira negue a raiz espírita desta teoria, podemos recorrer ao fundador desta corrente, a Allan Kardec, que nas “Obras póstumas” prevê este fenômeno para as gerações vindouras, no caso dele as que retornariam ao longo do século XX. Sobre os paralelos entre os textos de Vieira e Kardec, falarei em um próximo post, deixando o leitor primeiro ter o privilégio de procurar e analisar por conta própria as obras citadas até aqui.

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O dia que a terra parou

O dia depois de amanhã

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2 Responses to A questão do “fim dos tempos” renovada

  1. MarcoALSilva disse:

    Esse é um daqueles temas que eu chamo “mulher depois do banho”. O guarda-roupas está abarrotado de peças de todo tipo, mas ela sempre diz: “Nossa! Não tenho nada para vestir!!!”.

    Assim, o mesmíssimo conteúdo “renova-se” constantemente sob roupagens as mais diferentes (e esquisitas)… O Waldão investiu numa nova beca: reurbanização…

    Então tá…

  2. phd_angel disse:

    Interessante. Em 1995, a Revista Veja publicou uma carta que escrevi sobre crenças milenaristas, referente a uma matéria investigando uma seita brasileira. Faco uma analise de sociologia grupal. Infelizmente, não encontro a carta em nenhum lugar no meu computador… Se encontrar, posto aqui.

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